O ator britânico construiu uma trajetória de ativismo contra a violência doméstica, em defesa da comunidade LGBTQIA+ e pela igualdade social

A carreira de Patrick Stewart atravessou gerações e conquistou públicos de diferentes idades. Conhecido por interpretar Jean-Luc Picard, em “Star Trek”, e Charles Xavier, na franquia “X-Men”, o ator britânico também construiu uma trajetória marcada pelo posicionamento em questões sociais. Fora das telas, Stewart usou sua visibilidade para combater a violência doméstica, defender os direitos da comunidade LGBTQIA+ e manifestar apoio a movimentos contra o racismo.

O ator morreu em 28 de outubro de 2026, aos 86 anos. A notícia foi anunciada pela família no dia seguinte. Além das homenagens à sua contribuição para o cinema, a televisão e o teatro, organizações de direitos humanos destacaram seu envolvimento em campanhas que ultrapassaram o universo do entretenimento.

Uma infância traumática transformada em ativismo

A infância de Patrick Stewart, em Huddersfield, no norte da Inglaterra, foi marcada pela violência doméstica. Durante os anos 1940, o ator presenciou o pai agredir repetidamente sua mãe. Além das agressões, ele também viu como a sociedade tratava a situação: médicos, policiais, profissionais de saúde e vizinhos responsabilizavam a mulher pela violência. Em vez de reconhecerem o abuso, diziam que ela deveria ter provocado o marido ou que uma discussão sempre envolvia culpa dos dois.

Stewart cresceu consciente de que nada justificava aquelas agressões. No entanto, demorou décadas para falar publicamente sobre o que havia vivido. A decisão veio em 2004, depois de uma conversa com o irmão mais velho, que contou que as experiências da infância haviam marcado profundamente sua vida. Desse modo, o episódio levou o ator a compartilhar sua história pela primeira vez, como parte de uma campanha internacional da Amnesty International contra a violência direcionada às mulheres.

Ao tornar pública uma experiência familiar, Stewart passou a defender que a violência doméstica não afeta apenas quem sofre as agressões. Crianças que presenciam esses episódios também carregam consequências duradouras. Desse modo, em 2007, ele se tornou embaixador da Refuge, organização britânica de apoio a mulheres e crianças vítimas de violência doméstica. Assim, ele manteve o compromisso pelo restante da vida, participando de eventos, arrecadações e debates sobre políticas públicas.

Além disso, sua atuação também contribuiu para discussões que ajudaram a incluir crianças como vítimas de violência doméstica em seu próprio direito no Domestic Abuse Act de 2021. Após a morte do ator, a Refuge destacou sua importância para o trabalho da organização que ele realizava esse trabalho em homenagem à mãe. A instituição também ressaltou que sua disposição para falar sobre o passado encorajou outras vítimas a romper o silêncio.

O apoio à comunidade LGBTQIA+

A relação de Patrick Stewart com a comunidade LGBTQIA+ também se refletiu em sua carreira e em manifestações públicas. Em 1995, o ator interpretou Sterling em “Jeffrey”, comédia ambientada durante a crise da AIDS. Seu personagem é um homem gay que acompanha o companheiro, Darius, enquanto ele vive com HIV.

Anos depois, o ator recebeu reconhecimento por seu apoio à igualdade e à representatividade. Em 2013, foi homenageado pela PFLAG National com o prêmio Straight for Equality in Entertainment, concedido a aliados que contribuem para a inclusão de pessoas LGBTQIA+ no entretenimento.

Além disso, a amizade com Ian McKellen, que se tornou um dos principais nomes do ativismo LGBTQIA+ britânico, também marcou sua trajetória. Os dois interpretaram Magneto e Charles Xavier na franquia “X-Men”. Em 2013, McKellen celebrou o casamento de Stewart com a cantora Sunny Ozell.

Essa atenção à representatividade também chegou a “Star Trek: Picard”. Em entrevista à Forbes, em 2022, Stewart afirmou que incentivaria a presença de personagens LGBTQIA+ na franquia. Na terceira temporada, Seven of Nine e Raffi Musiker, que mantêm um relacionamento amoroso, assumem posições de destaque na Enterprise: Seven se torna capitã, enquanto Raffi ocupa o posto de primeira-oficial. A decisão ampliou a presença de personagens queer na liderança de uma das naves mais importantes da série.

Star Trek: Picard
“Star Trek: Piccard” | Créditos: Reprodução

Posicionamento contra o preconceito

O ativismo de Patrick Stewart também se estendeu ao combate ao racismo e à defesa da cooperação internacional. Em junho de 2020, durante uma entrevista à TV Guide, o ator declarou apoio ao movimento Black Lives Matter, que ganhou projeção mundial após o assassinato de George Floyd, nos Estados Unidos.

Na conversa, Stewart afirmou que queria participar das manifestações em Los Angeles contra a violência e o tratamento discriminatório direcionado à população negra. Ele contou que havia conversado com a esposa sobre a possibilidade de ir aos protestos. A preocupação com a segurança, em meio à pandemia de Covid-19, ainda era um fator a considerar. Mesmo assim, o ator ressaltou a importância de demonstrar apoio ao movimento.

Seu envolvimento político, porém, começou muito antes. Em entrevista à Esquire, em março de 2020, Stewart relembrou sua primeira experiência de desobediência civil, aos cinco anos, durante a eleição britânica de 1945. Seu pai, um sindicalista, levou o menino a um local de votação e preparou uma faixa para ele defender o movimento trabalhista. Quando um policial tentou afastá-lo, Stewart se recusou a sair.

Ao longo da vida, o ator manteve posições políticas públicas. Criticou o governo de Donald Trump nos Estados Unidos e o de Boris Johnson no Reino Unido. Além disso, também se opôs ao Brexit, saída britânica da União Europeia, que considerava um retrocesso para a integração entre países. Para Stewart, a cooperação internacional era essencial diante de desafios que ultrapassam fronteiras, como as mudanças climáticas e a desigualdade.

Quando a ficção se encontra com a realidade

O legado de Patrick Stewart também permanece nas histórias que ajudou a levar ao público. Em “Star Trek: Picard”, sua defesa de uma narrativa conectada aos problemas contemporâneos resultou em uma trama sobre refugiados romulanos. Ao questionar o abandono dessas pessoas pela Federação, Picard coloca em pauta a responsabilidade de acolher quem foge de conflitos, um debate que ultrapassa a ficção científica.

Em “X-Men”, Stewart também marcou a cultura pop ao interpretar Charles Xavier, personagem que enfrenta a perseguição aos mutantes e defende a convivência entre grupos diferentes. A franquia transformou o preconceito em um conflito central, aproximando a história dos debates sobre discriminação e intolerância.

Esses personagens continuam associados a algumas das discussões mais importantes de suas respectivas franquias. Além de dar vida a figuras icônicas, Stewart participou de produções que levaram questões sociais a públicos de diferentes gerações.

Por isso, sua contribuição para o entretenimento não se resume à longevidade de sua carreira ou à popularidade de seus personagens. Ela também está nas histórias que ajudou a contar e na maneira como elas mantiveram vivos debates sobre acolhimento, igualdade e respeito às diferenças.

Créditos da capa: Reprodução/IMDb/Montagem