Depois de anos tentando encontrar o tom certo para personagens mais violentos dentro do universo da Marvel, “O Justiceiro: Uma Última Morte” (The Punisher: One Last Kill) finalmente faz algo que parecia impossível: abraça completamente a brutalidade de Frank Castle sem pedir desculpas por isso.
Funcionando como uma continuação indireta de Demolidor: Renascido, o especial estrelado por Jon Bernthal não apenas retoma os eventos recentes envolvendo o personagem, mas redefine sua função dentro do UCM.
A morte do vingador… e o nascimento do vigilante
Em “O Justiceiro: Uma Última Morte” Frank deixa de ser apenas um homem consumido pela vingança para se tornar, de fato, um vigilante urbano. A “última morte” do título não é exatamente física. É a morte simbólica daquele Justiceiro movido exclusivamente pelo ódio.
Castle continua sendo um homem quebrado, cercado pelos fantasmas do passado, assombrado por escolhas, perdas e pela violência que definiu sua existência durante anos. Mas pela primeira vez, existe a sensação de que ele está tentando transformar toda essa dor em algo além de destruição.
O que renasce após essa morte metafórica é um protetor brutal, traumatizado e ainda perigoso, mas agora conectado à ideia de proteger a cidade, e não apenas punir criminosos. E sinceramente? Isso funciona muito melhor do que eu esperava.

Um começo caótico… talvez até demais
O especial, dirigido por Reinaldo Marcus Green e coescrito pelo próprio Bernthal, começa de forma quase absurda.
Após as mortes da família Gnucci, que controlava determinada região criminosa da cidade, o bairro mergulha em um caos absoluto. É literalmente uma zona de guerra. Assassinatos, milícias, facções armadas e civis aterrorizados transformam as ruas em um cenário pós-apocalíptico.
E aí surge um problema que o episódio simplesmente ignora: onde está a polícia? A guarda nacional? Os Vingadores? Qualquer tipo de autoridade minimamente funcional?
O roteiro força tanto essa sensação de “terra sem lei” que, em alguns momentos, tudo parece artificial demais até para os padrões da Marvel. Mas curiosamente… quanto mais o especial avança, menos isso importa. Considerando que a sobrivente Ma Gnucci (Judith Light) a matriarca da máfia de Nova York e inimiga brutal do Justiceiro nos quadrinhos coloca a cabeça de Castle como recompensa e um monte de bandidos vão atrás dele.
Um roteiro irregular, mas surpreendentemente corajoso
Ainda assim, o roteiro tropeça em alguns momentos. A narrativa é irregular, alguns personagens surgem e desaparecem rápido demais e certas decisões parecem existir apenas para levar Frank até a próxima cena de massacre. Existe uma sensação de improviso estrutural em partes do episódio, como se a produção estivesse mais interessada em impacto emocional e violência do que em construir um arco realmente sólido.
Mas talvez seja justamente isso que torne o especial tão interessante. O episódio não conclui a história, é apenas uma introdução de um dos personagens mais violentos e complexos da Marvel.

A Marvel finalmente perde o medo da violência
“Uma Última Morte” entrega é algo que a Marvel claramente estava evitando há anos: violência real. Brutalidade sem filtro. Frank Castle aqui é praticamente um slasher humano. O número de mortes nesse episódio supera facilmente temporadas inteiras de Demolidor.
E não é exagero. O especial realmente mergulha em execuções violentas, confrontos cruéis e cenas de ação secas, rápidas e extremamente agressivas. É impossível não perceber influências de obras como John Wick, além dos quadrinhos de Garth Ennis. A Marvel finalmente entende que o Justiceiro não funciona suavizado. Ele precisa assustar e dá prosseguimento com o legado da Netflix.
Jon Bernthal continua perfeito como Frank Castle
Jon Bernthal continua sendo a melhor escolha possível para o personagem. O ator carrega o episódio inteiro com uma atuação exausta, raivosa e melancólica. Existe um peso emocional constante no olhar dele, como se Frank estivesse tentando desesperadamente encontrar algum propósito depois de destruir a própria vida por tanto tempo.
E isso conversa diretamente com a proposta do especial, não é sobre aposentar o Justiceiro, mas redefinir o que ele significa dentro do UCM.

Vale a pena assistir “O Justiceiro: Uma Última Morte”?
Com toda certeza. “O Justiceiro: Uma Última Morte” não parece um produto típico da Marvel. Ele é desconfortável, excessivo, deprimente e surpreendentemente cruel. Pela primeira vez em muito tempo, a sensação é que o estúdio parou de tentar domesticar Frank Castle e simplesmente deixou o personagem existir como deveria.
E no final das contas, essa “última morte” não representa o fim do Justiceiro. Representa o nascimento definitivo dele dentro do UCM.
Por fim, “O Justiceiro: Uma Última Morte” está disponível no Disney +.
Crédito da capa: Divulgação Disney +
“O Justiceiro: Uma Última Morte” (The Punisher: One Last Kill EUA, 2026)
Showrunner: Dario Scardapane
Direção: Reinaldo Marcus Green
Roteiro: Jon Bernthal e Reinaldo Marcus Green
Elenco: Jon Bernthal, Débora Ana Woll, Jason R. Moore e Judith Light
Duração: 50 min.
