“Verity” thriller psicológico de Colleen Hoover publicado no Brasil pela Galera Record, chegou aos cinemas brasileiro em 30 de setembro. Dirigido por Michael Showalter, o filme traz Dakota Johnson como a escritora Lowen Ashleigh. Ela é contratada para concluir a série de livros de Verity Crawford, personagem de Anne Hathaway, após a autora sofrer um misterioso acidente. Ao lado das duas protagonistas, Josh Hartnett interpreta Jeremy Crawford, marido de Verity.

A premissa central permanece a mesma do livro. Lowen se muda para a mansão dos Crawford para entender melhor o trabalho de Verity. Ao chegar, Lowen encontra um manuscrito autobiográfico escrito em segredo pela autora.

O texto revela detalhes perturbadores sobre o casamento e a família Crawford, e muda completamente a visão de Lowen sobre a mulher que deveria substituir profissionalmente. A partir daí, o roteiro começa a se afastar da história original em vários pontos.

Cortes que suavizaram a trama

Um dos momentos mais perturbadores do livro não entrou na adaptação. No romance, ainda grávida das gêmeas, Verity tenta interromper a própria gravidez usando um cabide de arame. Ela acha que não seria capaz de amar as filhas tanto quanto Jeremy as amaria. A tentativa falha, mas deixa uma cicatriz na bochecha de uma dos bebês, que passa a ser identificada justamente por essa marca. O filme mantém o horror do que Verity pensava e sentia em relação aos próprios filhos, mas alguns dos detalhes mais descritos pela personagem no manuscrito perde parte do peso que torna o manuscrito do livro tão difícil de ler.

O roteiro também cortou os episódios de sonambulismo de Lowen, que no livro têm explicação. Ela é sonâmbula desde criança, a ponto de a própria mãe ter medo dela e mantê-la afastada de outras pessoas durante a infância. Lowen fazia terapia, e quebrou o pulso dormindo sem perceber. Com isso, ela aprendeu a conviver com a desconfiança constante sobre o que seria capaz de fazer sem controle consciente. No livro, isso alimenta a dúvida do leitor sobre o que Lowen realmente vê ou ouve na mansão: É Verity se mexendo, ou apenas mais um episódio de sonambulismo?

Sem esse elemento, uma cena nova do filme fica sem a mesma base narrativa: O beijo entre Lowen e Verity. A cena não existe no livro. Segundo o diretor Michael Showalter, ela nem estava no roteiro original, mas surgiu durante as filmagens por ideia de Anne Hathaway e Dakota Johnson. Collen Hoover chegou a declarar que a cena a deixou insegura por fugir do material original, mas que se tornou uma de suas preferidas no final.

A ausência de uma das gêmeas

Outra mudança notável é o corte de Chastin, uma das gêmeas da família Crawford. No livro, Verity já havia tentado matar Harper quando bebê, por causa de um pesadelo, que a fez acreditar que Harper era uma criança má que mataria a irmã. Anos depois, durante um passeio de canoa, Harper morre afogada enquanto Verity vira a canoa e prioriza salvar o irmão caçula, Crew.

O gatilho para esse segundo ataque é a morte da irmã gêmea, Chastin, vítima de uma reação alérgica em uma festa do pijama pouco antes. Verity culpa Harper pela perda e deixa de vê-la como filha. Sem a irmã gêmea na história, essa cadeia de causa e efeito desaparece, e a motivação de Verity em relação a Harper fica rasa para quem só conhece a versão do filme.

capa do livro verity da colleen hoover
Capa do livro “Verity” (Créditos: Reprodução)

A Morte da Verity e o fim da história

O método da morte de Verity se mantém fiel ao livro. A mando de Lowen, Jeremy cobre o nariz e a boca da esposa até que ela pare de respirar, fazendo com que a morte pareça natural durante o sono. A diferença aparece depois. No livro, Jeremy decide deixar o corpo de Verity na cama e chamar a polícia na manhã seguinte. Já no filme, o casal leva o corpo até um lago e o joga na água, já sem vida, em uma cena que não existe no romance.

Apesar das mudanças, “Verity” não é um filme ruim. Alguns diálogos são mantidos praticamente intactos em relação ao livro e, de modo geral, a história ainda consegue transmitir a ideia central do romance: um casamento marcado por segredos e uma escritora que se vê obrigada a decidir em quem acreditar. Para os leitores, porém, o principal problema está na forma como a adaptação aproveita pouco a grande ambiguidade da história: afinal, qual é a verdade? O manuscrito ou a carta?

No livro, essa dúvida permanece em aberto até o final. Já o filme parece construir seu desfecho de uma maneira que leva o público a acreditar que a carta é a versão verdadeira.

O problema aparece principalmente para quem já leu o livro. Os cortes, somados à mudança de tom, tornam a adaptação mais acessível para quem nunca teve contato com a história, mas deixam a desejar para quem esperava reencontrar o mesmo nível de tensão, suspense psicológico e ambiguidade presentes na leitura original.

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