Festival começou em Belo Horizonte com homenagens a Paz Encina e Conceição Evaristo e transformou a celebração de duas décadas em uma discussão sobre circulação, identidade e os caminhos do audiovisual na região
Completar 20 anos poderia empurrar a CineBH para uma noite dedicada à memória. A abertura da edição de 2026, no entanto, escolheu outro caminho. Em vez de perguntar apenas o que o festival construiu nessas duas décadas, a mostra colocou no centro da programação uma questão voltada para o que ainda está por vir: “Cinema latino-americano, o que será?”.
Foi a partir dessa provocação que a 20ª CineBH começou nesta terça-feira, 22 de setembro, no Cine Theatro Brasil, em Belo Horizonte. A cerimônia também abriu o 17º Brasil CineMundi e reuniu mais de mil pessoas, segundo a organização.
A escolha do tema ajuda a entender o lugar que o festival pretende ocupar nesta edição. Não se trata apenas de exibir filmes produzidos na América Latina, mas de discutir quais condições permitem que essas cinematografias existam, circulem e alcancem novos públicos.
Essa preocupação apareceu no discurso da coordenadora da CineBH, Raquel Hallak. Ao falar sobre o cinema brasileiro, ela aproximou criação artística e estrutura econômica, lembrando que um filme também movimenta profissionais, investimentos, conhecimento e diferentes setores da cadeia audiovisual.
A questão da circulação ganhou peso especial. Hallak defendeu condições permanentes para que produções brasileiras encontrem telas dentro e fora do país e afirmou que o cinema nacional precisa ocupar o cenário internacional mantendo identidade e autonomia.
É uma discussão especialmente significativa para um festival que chega às duas décadas ao mesmo tempo em que amplia sua relação com outras cinematografias da região.
Paz Encina representa um cinema construído apesar das fronteiras
A homenagem à cineasta paraguaia Paz Encina deu forma concreta a essa discussão.
Seu primeiro longa, “Hamaca Paraguaya”, também completa 20 anos em 2026. Lançado em um país cuja produção cinematográfica atravessou períodos de descontinuidade, o filme ajudou a projetar internacionalmente uma realizadora que passou a construir sua obra a partir da memória, das ausências e da própria história do Paraguai.
Ao receber o Troféu Horizontes, Encina preferiu transformar a homenagem em uma espécie de mapa afetivo do cinema latino-americano. A diretora evocou 20 filmes e realizadores que atravessaram sua trajetória, relacionando cada um deles aos 20 anos de sua carreira e da própria CineBH.
Nesse percurso apareceram cinematografias de diferentes países e gerações, do Brasil à Argentina, do Chile ao México, reforçando uma ideia que acompanha a temática desta edição, o cinema latino-americano não funciona como uma identidade única, mas como uma rede de experiências que frequentemente se encontra apesar das fronteiras.


Conceição Evaristo leva a escrevivência para outra linguagem
Se Paz Encina aproximou a abertura da história do cinema latino-americano, Conceição Evaristo levou a noite para um território diferente.
A escritora mineira estreia como atriz em “Se eu fosse vivo…vivia”, novo longa de André Novais de Oliveira, no qual divide o protagonismo com Norberto Novais de Oliveira. O filme chegou à CineBH depois de ser premiado como Melhor Filme no Festival de Brasília e receber ainda uma menção honrosa por seus protagonistas.
Impedida de chegar a Belo Horizonte por causa das condições meteorológicas, Evaristo participou da homenagem de forma remota. Ao falar sobre a experiência, aproximou o trabalho de André Novais de um conceito central de sua própria produção literária, a escrevivência.
A conexão faz sentido dentro do cinema do diretor mineiro. André Novais construiu parte importante de sua filmografia observando relações familiares, afetos e personagens ligados ao cotidiano, sobretudo a partir de espaços e experiências que raramente ocupavam o centro do cinema brasileiro.
A presença de Conceição Evaristo nesse universo amplia esse diálogo. Sua estreia diante das câmeras não aparece apenas como uma curiosidade de elenco, mas como o encontro entre duas formas de narrar experiências brasileiras a partir de quem as vive.
Uma abertura que diz mais sobre o presente do que sobre o aniversário
A sessão de “Se eu fosse vivo…vivia” encerrou a primeira noite do festival. A escolha também aproximou a CineBH de uma produção cinematográfica construída em Minas Gerais, por uma produtora, a Filmes de Plástico, cuja trajetória passou a ocupar espaço importante no cinema brasileiro contemporâneo.
No conjunto, as homenagens e o filme de abertura ajudaram a revelar o sentido da pergunta escolhida para os 20 anos da mostra.
Em vez de tentar definir o cinema latino-americano por uma estética, um gênero ou uma identidade comum, a CineBH começa sua edição comemorativa olhando para os caminhos que permitem que diferentes cinemas continuem existindo, encontrando público e dialogando entre si.
Para um festival que chega às duas décadas, talvez seja justamente essa a questão mais importante: não apenas lembrar os filmes e encontros que passaram por Belo Horizonte, mas discutir quais estruturas serão necessárias para que os próximos 20 anos possam acontecer.
A 20ª CineBH segue até 27 de setembro, com programação gratuita em diferentes espaços de Belo Horizonte. Paralelamente, o 17º Brasil CineMundi reúne profissionais e projetos em torno da coprodução e da internacionalização do audiovisual brasileiro.
Esta matéria chegou até você de graça. Produzi-la, não.
O GeekPop News é um projeto de jornalismo cultural independente. Seu apoio ajuda a manter nosso trabalho e a construir os próximos anos do portal.
Apoie a partir de R$ 10 por mês. Clique aqui e faça sua doação!














