Novo filme de André Novais Oliveira acompanha um casal por cinco décadas e encontra na velhice, no cotidiano e até na ficção científica novas formas de falar sobre amor e passagem do tempo
Existe algo profundamente familiar em Se Eu Fosse Vivo… Vivia. André Novais Oliveira começa sua história na Contagem dos anos 1970, quando Gilberto e Jacira ainda são jovens e vivem os primeiros momentos de um relacionamento que atravessaria as cinco décadas seguintes. Interpretados nessa fase por Jean Paulo Campos e Tainá Evaristo, os dois protagonizam um romance adolescente cercado por uma reconstrução cuidadosa da época, que passa pelo figurino, pela trilha sonora e pela própria maneira como o Bairro Amazonas aparece na tela.
Existe um cuidado evidente em recuperar aquele lugar sem transformá-lo apenas em cenário de época, porque Contagem não serve como pano de fundo para uma história que poderia acontecer em qualquer lugar. A cidade pertence àquelas pessoas e participa da memória que o filme começa a construir.


Uma vida comum, nunca pequena
Cinquenta anos depois, encontramos Gilberto e Jacira novamente, agora interpretados por Norberto Novais Oliveira e Conceição Evaristo. O tempo passou, os corpos mudaram e a dinâmica daquele relacionamento também precisou se adaptar ao envelhecimento, mas André não está interessado em transformar a terceira idade em um grande discurso.
Ele prefere observar seus personagens vivendo. Eles acordam, tomam café, comem uma laranja, cuidam das plantas, fazem churrasco no quintal, conversam e ocupam uma casa marcada por uma intimidade construída ao longo de décadas. São situações tão simples que quase poderiam passar despercebidas, mas é justamente nelas que Se Eu Fosse Vivo… Vivia encontra grande parte de sua força.
Existe uma naturalidade nesse cotidiano que aproxima o filme da sensação de observar a vida acontecendo diante da câmera. Gilberto e Jacira não precisam viver grandes acontecimentos para justificar o interesse por eles, porque existe uma história inteira acumulada na maneira como dividem aquela casa, nos pequenos hábitos e até nos silêncios. É uma vida comum, mas nunca uma vida pequena.
Ao acompanhar essa rotina, também é difícil não projetar alguma coisa de nós mesmos sobre os personagens. Em determinados momentos, podemos enxergar nossos pais ou nossos avós naquele casal e, em outros, imaginar que um dia seremos nós tentando compreender um mundo que continuou mudando enquanto envelhecíamos.
Essa proximidade ganha ainda mais significado porque André Novais construiu o filme a partir de uma experiência pessoal. O diretor já contou que começou a desenvolver a história durante o processo de luto pela morte de sua mãe, Dona Zezé, em 2018. Essa informação não transforma o longa em um exercício autobiográfico, mas ajuda a compreender a delicadeza com que ele observa a passagem do tempo, a ausência e aquilo que permanece depois dela.
Também existe algo especialmente íntimo na escolha de Norberto, pai do próprio André, para viver Gilberto, enquanto Conceição Evaristo assume Jacira em sua estreia como atriz no cinema. A escritora encontra na personagem uma presença bastante natural, sem que o peso de sua trajetória literária se sobreponha à mulher que vemos na tela.
Apesar da melancolia que acompanha parte dessa história, Se Eu Fosse Vivo… Vivia também é genuinamente engraçado. O humor surge das conversas, das situações domésticas e da própria personalidade dos personagens, sem a necessidade de criar pausas para uma piada. Essa combinação faz com que o filme transite com facilidade entre a comédia e o drama, permitindo que a identificação com Gilberto e Jacira também torne alguns momentos mais dolorosos. Existe algo desconfortavelmente universal em perceber aquelas duas pessoas lidando com limitações que chegam com a idade, com um mundo que nem sempre parece preparado para enxergá-las e, principalmente, com a consciência de que o tempo disponível já não é o mesmo.


Quando o extraordinário entra em cena
É justamente quando parece que já compreendemos completamente o filme que André Novais começa a revelar outra camada da história. Gilberto é fascinado por ufologia, compra revistas sobre o assunto, acompanha programas de televisão e demonstra uma curiosidade quase juvenil diante da possibilidade de existir alguma coisa além daquilo que conhece.
Inicialmente, esses elementos funcionam como características do personagem e também rendem alguns dos momentos mais divertidos do longa. Aos poucos, porém, percebemos que existe algo sendo construído ali. O interesse pela ufologia deixa de parecer apenas um detalhe quando a narrativa conduz Gilberto a uma experiência em Sabará, abrindo definitivamente espaço para o fantástico.
Sem revelar o que acontece nesse momento, porque boa parte da força do terceiro ato depende justamente da surpresa, Se Eu Fosse Vivo… Vivia assume uma dimensão de ficção científica. A mudança é significativa e pode causar algum estranhamento, principalmente porque acontece depois de acompanharmos uma narrativa profundamente naturalista durante boa parte do filme. No entanto, ela não surge sem preparação.
O roteiro plantou essa possibilidade através de Gilberto e de seu interesse pelo desconhecido, permitindo que aquilo que parecia pertencer apenas ao imaginário do personagem passe a ocupar concretamente a história.
Essa aproximação com o fantástico também não é completamente estranha ao cinema de André Novais e da Filmes de Plástico. O próprio diretor já falou sobre como seus trabalhos anteriores, mesmo ligados a um registro naturalista, flertavam com elementos do realismo fantástico, inclusive a partir de influências como a literatura de Murilo Rubião. Em Se Eu Fosse Vivo… Vivia, porém, essa relação deixa de permanecer apenas nas entrelinhas. André assume o fantástico de maneira mais direta e permite que a ficção científica participe efetivamente da narrativa, sem abandonar o interesse pelas relações humanas que sustentou tudo até aquele momento.
É justamente aí que uma mudança aparentemente arriscada funciona. A ficção científica não substitui o romance entre Gilberto e Jacira, tampouco transforma o terceiro ato em outro filme desconectado do primeiro. Ela amplia aquilo que já estava sendo discutido.
Depois de falar sobre memória, envelhecimento, perda e sobre uma vida inteira construída ao lado de alguém, o longa introduz o desconhecido como mais uma possibilidade diante de personagens que já atravessaram tantas transformações. Gilberto envelheceu, mas continua curioso, continua imaginando e ainda consegue olhar para algo que não compreende completamente.


A ficção científica também cabe aqui
Também existe um prazer particular em assistir a essa ficção científica ocupar a Região Metropolitana de Belo Horizonte. Contagem e Sabará não são lugares que o imaginário popular costuma associar ao gênero, e André não precisa descaracterizá-las para permitir que o fantástico exista ali. Casas, ruas e quintais continuam reconhecíveis enquanto algo extraordinário começa a dividir espaço com aquela realidade.
Os efeitos visuais utilizados nesse momento também surpreendem pelo cuidado. Evidentemente, estamos falando de uma produção que trabalha em uma escala muito diferente dos grandes blockbusters do gênero, mas o filme compreende seus próprios limites e encontra soluções convincentes para aquilo que pretende mostrar. Não existe a sensação de que a ambição visual ultrapassou os recursos disponíveis, o que ajuda a preservar o impacto da sequência.
Talvez seja justamente esse contraste que torne Se Eu Fosse Vivo… Vivia tão particular. Durante boa parte da história, André Novais nos convence de que vale a pena observar duas pessoas tomando café, cuidando das plantas ou preparando um churrasco.
Depois, quando introduz algo completamente inesperado nesse universo, não diminui a importância de nenhum desses gestos. Pelo contrário, o extraordinário funciona porque aprendemos primeiro a reconhecer o valor daquela vida cotidiana.
No fim, o longa consegue ser engraçado, melancólico, romântico e estranho sem precisar escolher apenas um desses caminhos. Existe tristeza na passagem do tempo, mas também existe humor, desejo, curiosidade e uma vontade de continuar vivendo que não desaparece simplesmente porque seus personagens envelheceram. O filme começa olhando para duas pessoas comuns e termina encontrando nelas algo muito maior, sem precisar transformá-las em outra coisa para chegar até lá.
Se Eu Fosse Vivo… Vivia poderia ser apenas um delicado romance sobre envelhecer ao lado de alguém e provavelmente já encontraria força nessa proposta. André Novais, no entanto, escolhe arriscar e permite que o cotidiano e o fantástico ocupem a mesma história. É justamente nessa combinação que o filme encontra sua personalidade.
Afinal, depois de cinco décadas dividindo uma vida, Gilberto e Jacira ainda carregam a possibilidade de serem surpreendidos pelo mundo. E talvez exista algo profundamente humano nisso: envelhecer não significa necessariamente deixar de imaginar o que ainda pode existir do outro lado daquilo que conhecemos.
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