O curta “Barulho” destaca a produção negra em um setor marcado pela desigualdade no acesso a recursos públicos
O cinema negro brasileiro ganha espaço nas telas e nos festivais, mas o acesso ao financiamento e às oportunidades de trabalho continua desigual. Segundo dados divulgados pela Associação de Profissionais do Audiovisual Negro no Brasil (Apan), 94% dos filmes que receberam recursos públicos superiores a R$ 5 milhões foram dirigidos por pessoas brancas.
A desigualdade também aparece nas equipes de trabalho. Na produção cinematográfica, profissionais negros representam 29,3% da força de trabalho, enquanto pessoas brancas correspondem a 69,6%. Na televisão aberta, pessoas pretas e pardas ocupam 32,6% dos postos de trabalho registrados, diante de 65% de pessoas brancas.
A Apan destaca ainda que profissionais negros estão mais concentrados em funções técnicas, frequentemente associadas a remunerações menores, informalidade e menor proteção trabalhista. Por isso, ampliar a representatividade exige mais do que diversificar os rostos nas telas. O desafio também envolve garantir que profissionais negros tenham acesso a financiamento, ocupem posições de liderança e consigam permanecer na indústria audiovisual.
Produção audiovisual negra cresce desde os anos 2010
Apesar das barreiras, o número de filmes dirigidos por pessoas negras no país aumentou nas últimas décadas. A pesquisa “Cinemateca Negra”, desenvolvida pelo Instituto NICHO 54, identificou 1.104 filmes dirigidos por pessoas negras no Brasil entre 1949 e 2022. Desse total, 83% foram realizados a partir de 2010.
O levantamento contabilizou seis títulos na década de 1960, 117 nos anos 2000 e 586 nos anos 2010, período com o maior volume de produções registrado pela pesquisa. O crescimento, porém, não significa que a desigualdade tenha sido superada. Dados preliminares divulgados em 2023 indicavam que apenas 10% dos filmes brasileiros lançados entre 2010 e 2020 haviam sido dirigidos por pessoas negras.
A diretora mineira Karen Suzane também destaca a importância das oportunidades para a continuidade de sua carreira. Para ela, conseguir permanecer na direção é fundamental para que profissionais negros possam desenvolver seus projetos e contar histórias que contribuam para uma sociedade mais justa.
Nesse contexto, seu novo curta, “Barulho“, integra um movimento que busca ampliar a presença de profissionais negros no audiovisual brasileiro. A circulação do curta por festivais contribui para levar essa narrativa a novos públicos, mas os dados mostram que ainda há desafios para transformar o crescimento da produção em igualdade de oportunidades.
“Foi um projeto que me permitiu a permanência na função de diretora. O foco é ser contratada para exercer somente esta função, assim pretendo somatizar aos dados que a competência artística requer oportunidade de contar histórias que contribuam com as aspirações de uma humanidade que necessita constantemente de justiça, esperança, paz e unidade”, afirma Karen Suzane.
Leia mais: Morte de Arthur Brandão continua um mistério | Novas leituras revelam pistas em Quem Ama Cuida?

“Barulho”: produção mineira coloca personagens negros no centro da história
Nesse cenário, o curta-metragem mineiro “Barulho”, dirigido por Karen Suzane, desafia as estatísticas ao contar com um elenco 100% negro. A produção acompanha um viúvo que tem sua rotina transformada pela chegada de novos vizinhos sambistas.
Desde março, “Barulho” já passou por mais de 15 eventos audiovisuais no Brasil e no exterior. Entre eles estão o 37º Kinoforum, Festival Internacional de Curtas de São Paulo, o 3º Festival Internacional de Nuevo Cine Independiente, na Argentina, e o 16º Fórum de Cinema de Moçambique.
O elenco reúne Carlos Francisco, conhecido por interpretar o pai da família em “Marte Um”, e a atriz, poeta e escritora Elisa Lucinda, que faz uma participação especial. Também integram a produção Dan Ferreira, Vitor Britto, Anne Belize, Joyce, Mihh Moraes, Veto Martins e Alicia dos Anjos.
Em “Barulho”, Carlos Francisco interpreta Humberto, um homem que se fecha após perder a esposa. No entanto, a chegada de novos vizinhos altera seu cotidiano e cria um conflito que aproxima o luto da força coletiva do samba. Para o ator, interpretar personagens negros com histórias, sentimentos e fragilidades que vão além dos estereótipos representa uma mudança importante no cinema brasileiro.
“Aos quase 65 anos, com uma vida dedicada ao teatro e pouco mais de uma década de cinema, tenho tido o privilégio de interpretar personagens construídos fora dos estereótipos seculares. São pais, avós e negros velhos com suas corporeidades e modo singular de expressar a dor e as fragilidades, numa vida que exige manter-se no caminho, sem tempo para o descanso ou o choro(…) Como cidadão negro encontro ressonância nas obras dos jovens (e velhos) diretores e diretoras afrodescendentes que encontro no caminho, nos sets ou nas telas”, disse Carlos Francisco
A representatividade também aparece na escalação de Alicia dos Anjos. Atriz trans, ela interpreta Lúcia, filha de Humberto, uma mulher cisgênero. A escolha amplia as possibilidades de atuação para artistas trans, que historicamente encontram barreiras para ocupar papéis que não estejam diretamente relacionados à sua identidade de gênero.
O curta conta com patrocínio da BB Seguros, produção da Maruti Blue Produções, produção associada de Tina Tigre e distribuição da Tarrafa. Entre as próximas exibições anunciadas estão o 2º Festival Diaspóricas de Cinema e Música Negra, de 12 a 14 de novembro, em Goiás, e uma sessão no Cineclube Lavradio 11, no Rio de Janeiro, em 25 de novembro.
Imagem de capa: Divulgação
Esta matéria chegou até você de graça. Produzi-la, não.
O GeekPop News é um projeto de jornalismo cultural independente. Seu apoio ajuda a manter nosso trabalho e a construir os próximos anos do portal.
Apoie a partir de R$ 10 por mês. Clique aqui e faça sua doação!
