Romance de Guido Rodríguez Alcalá resgata morte de radialista em 1959 e aborda repressão, preconceito e o papel da imprensa no Paraguai

Em 2016, a Criterio Ediciones publicou o livro “Narciso”, do escritor e jornalista paraguaio Guido Rodríguez Alcalá, que se inspira na morte de Bernardo Aranda, radialista encontrado sem vida em 1959. O livro inspirou o filme de Marcelo Martinessi, que figura como um dos longas de maior repercussão no Festival do Rio deste ano. O episódio que inspira o livro ocorreu durante a ditadura de Alfredo Stroessner, que governou o Paraguai entre 1954 e 1989, e deu origem a uma investigação marcada pela perseguição a homens acusados de homossexualidade.

Com 198 páginas, o romance combina acontecimentos históricos e elementos ficcionais para reconstruir o ambiente político e social de Assunção no final dos anos 1950. A obra acompanha a trajetória de um jovem ligado ao rock and roll e mostra como sua morte se relaciona com a repressão policial, a influência da imprensa e os preconceitos da sociedade paraguaia.

O que acontece no livro “Narciso”?

A história acompanha Narciso, personagem fictício inspirado em Bernardo Aranda, um jovem que retorna de Buenos Aires ao Paraguai e conquista popularidade por sua ligação com o rock and roll. No entanto, sua aparência, seu comportamento e sua circulação entre diferentes grupos sociais chamam a atenção de pessoas influentes em uma sociedade conservadora. Entretanto, suas relações também o colocam em situações de vulnerabilidade. Tudo isso em um período marcado pela vigilância política e pelo controle dos comportamentos considerados inadequados.

Uma das personagens centrais é Lolita, adolescente que se apaixona por Narciso e, anos depois, recupera lembranças daquela época. A narrativa utiliza suas recordações para apresentar acontecimentos relacionados ao protagonista, enquanto um narrador fala da situação política do Paraguai.

Além da trajetória de Narciso, o livro aborda episódios como a greve operária de 1958 e as manifestações estudantis de 1959, reprimidas pelas autoridades paraguaias. A participação de personagens ligados ao governo e à imprensa também contribui para apresentar o funcionamento do regime. Assim, a investigação da morte do protagonista divide espaço com acontecimentos que ajudam a contextualizar a ditadura.

Bernardo Aranda: Morte misteriosa inspirou o romance

Na madrugada de 1º de setembro de 1959, Bernardo Aranda, locutor da Rádio Comuneros, foi encontrado morto em um quarto que alugava em Assunção, capital do Paraguai. O corpo estava carbonizado após um incêndio, e o episódio ganhou repercussão nos jornais. Apesar das investigações, as circunstâncias da morte e a identidade de um possível responsável não foram esclarecidas de maneira conclusiva.

Inicialmente, diferentes hipóteses foram consideradas, incluindo a possibilidade de um crime motivado por ciúmes. As autoridades também passaram a investigar supostas relações homossexuais envolvendo Aranda, embora não houvesse comprovação dessas suspeitas ou de sua relação com a morte. Por isso, a investigação acabou se transformando em uma operação de repressão direcionada a homens apontados como homossexuais.

Em setembro daquele ano, o jornal paraguaio El País divulgou informações sobre 108 pessoas consideradas suspeitas por sua suposta conduta moral. Dessa forma, o número passou a identificar o episódio conhecido como “Caso dos 108”, associado não apenas a detenções e violência policial, mas também a exposição pública dos investigados. Posteriormente, o termo 108, utilizado de forma pejorativa contra homossexuais no Paraguai, também foi apropriado por movimentos de defesa dos direitos LGBT+ como símbolo de resistência.

O livro aborda a repressão e a atuação da imprensa

Em “Narciso”, Guido Rodríguez Alcalá utiliza a ficção para apresentar o ambiente de vigilância e discriminação durante os primeiros anos da ditadura de Stroessner. A narrativa explora as relações entre autoridades, veículos de comunicação e diferentes setores da sociedade, mostrando como acusações relacionadas à vida privada podiam comprometer a reputação e a segurança dos cidadãos.

O papel da imprensa é um dos elementos presentes no romance. Lolita, por exemplo, é filha de David González, gerente do jornal Patria, ligado ao regime. Por meio dessa personagem e de outros acontecimentos, o livro apresenta a circulação de informações e a influência dos jornais na construção da imagem pública das pessoas investigadas.

Documentos e testemunhas de pessoas que conheceram Bernardo

Para escrever “Narciso”, o autor reuniu depoimentos, jornais, revistas e outros materiais relacionados ao período. Guido Rodríguez Alcalá afirmou que utilizou os relatos de pessoas que conheceram o contexto da morte de Bernardo Aranda para desenvolver a narrativa. Entre as fontes consultadas estava Gloria Giménez Guanes, que era adolescente na época e nutria uma paixão platônica pelo radialista. Segundo o escritor, suas lembranças inspiraram a criação de Lolita, personagem que ocupa uma posição central na reconstrução ficcional dos acontecimentos.

O autor também explicou que escolheu o nome Narciso como referência ao personagem da mitologia grega conhecido por sua beleza. No romance, essa característica aparece associada à atenção despertada pelo protagonista e às relações que ele estabelece com pessoas de diferentes posições sociais. Embora inspirado em fatos reais, o livro não apresenta uma solução comprovada para a morte de Bernardo Aranda.

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Quem Matou Narciso?: Adaptação foi destaque no Festival do Rio 2026

Em 2026, o romance ganhou uma adaptação cinematográfica dirigida pelo paraguaio Marcelo Martinessi. Distribuído no Brasil com o título “Quem Matou Narciso?”, o filme é protagonizado por Diro Romero. Do mesmo modo, acompanha um jovem radialista cuja morte ocorre em meio à repressão política e aos preconceitos da sociedade paraguaia. A produção é uma adaptação livre da obra de Guido Rodríguez Alcalá, com alterações na estrutura narrativa e no desenvolvimento dos personagens.

Crédito de capa: Marisol Ramírez/Última Hora.

Estagiária sob supervisão de Anna Flávia Lopes