Conheça a história do cineasta que transformou experiências pessoais, críticas à guerra e preocupações ambientais em clássicos da animação
Poucos cineastas conseguem transformar desenhos em mundos tão reconhecíveis quanto Hayao Miyazaki. Com personagens marcantes, cenários detalhados e histórias que misturam fantasia e realidade, o diretor japonês construiu uma carreira que atravessa gerações. Assim, seus filmes conquistaram o público com criaturas extraordinárias, mas também levantam questões sobre guerra, natureza, amadurecimento e as contradições humanas.
Cofundador do Studio Ghibli, Miyazaki ajudou a transformar a animação japonesa em uma referência internacional. Por trás de títulos como “Meu Amigo Totoro”, “Princesa Mononoke” e “A Viagem de Chihiro”, estão experiências pessoais, interesses antigos e uma maneira particular de observar o mundo.
A aviação e a guerra marcaram sua infância
Nascido em Tóquio, no Japão, em 5 de janeiro de 1941, Hayao Miyazaki desenvolveu desde cedo uma paixão por aviões marcada por uma contradição que atravessaria toda a sua obra. Durante a Segunda Guerra Mundial, seu pai, Katsuji Miyazaki, trabalhava em uma empresa familiar que fabricava peças para aeronaves militares. Essa proximidade com a aviação despertou o fascínio do cineasta, mas também o colocou em contato com as contradições de uma indústria ligada à guerra.
Assim, anos depois, essa dualidade entre a a beleza de voar e a capacidade de destruir ganharia espaço em seus filmes. Em “Porco Rosso: O Último Herói Romântico” (1992), a aviação se mistura às marcas deixadas pelo conflito, enquanto “Vidas ao Vento” (2013) acompanha um engenheiro que sonha em projetar aviões em um período de crescente militarização do Japão. Desse modo, nas mãos de Miyazaki, voar representa tanto a liberdade quanto o peso das escolhas humanas.
A experiência de viver sua infância nos anos de 1940 também ajuda a compreender a presença recorrente de conflitos em suas obras. Dessa maneira, em vez de glorificar batalhas, o diretor costuma explorar seus custos humanos e os dilemas enfrentados por quem vive em sociedades violentas.
Como Hayao Miyazaki fundou o Studio Ghibli?
Antes de fundar o Studio Ghibli, Hayao Miyazaki já queria provar que a animação podia contar histórias mais complexas do que as aventuras tradicionais do gênero. O ponto de virada foi “Nausicaä do Vale do Vento” (1984), adaptação de seu próprio mangá. O sucesso do filme mostrou que havia público para suas narrativas, marcadas por conflitos morais e personagens que não se encaixam facilmente entre heróis e vilões.
Em 1985, Miyazaki transformou essa visão em um projeto ao fundar o estúdio com Isao Takahata e o produtor Toshio Suzuki. A ideia não era apenas produzir desenhos bonitos, mas dar espaço a histórias que respeitassem a inteligência do público. O primeiro longa do Ghibli foi “O Castelo no Céu” (1986), que combinou aventura, tecnologia e questionamentos sobre o poder.
A diferença está também no ritmo. Nos filmes de Miyazaki, uma refeição, uma viagem de trem ou alguns minutos observando o vento podem ter tanta importância quanto uma perseguição. No entanto, esses momentos de pausa não são meros intervalos: fazem o espectador habitar aquele mundo. É uma das marcas que transformaram o Ghibli em um estúdio reconhecido por tratar a animação não apenas como espetáculo, mas como uma forma de observar a vida.
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Além disso, a preocupação ambiental é uma das marcas do cinema de Hayao Miyazaki. Com seu estilo visual delicado e cenários ricos em detalhes, o diretor transforma florestas, rios e animais em elementos essenciais da narrativa. A natureza não aparece apenas como pano de fundo, mas como parte de ecossistemas ameaçados pelas ações humanas.
Essa abordagem também se reflete na construção dos personagens. O diretor evita vilões puramente mal-intencionados e apresenta figuras com motivações próprias, mesmo quando suas escolhas provocam destruição. Desse modo, ao explorar conflitos entre interesses legítimos, o cineasta questiona a ideia de que o progresso precisa acontecer à custa do meio ambiente, sem reduzir a disputa a uma divisão simples entre o bem e o mal.
Protagonistas que precisam descobrir o próprio caminho
As personagens femininas também ocupam um lugar central na filmografia de Miyazaki. Em vez de colocá-las à espera de um herói, o cineasta constrói protagonistas com objetivos próprios, contradições e desafios que vão além dos conflitos românticos. Suas histórias exploram diferentes formas de coragem, independência e amadurecimento.
Em “O Serviço de Entregas da Kiki” (1989), uma jovem bruxa deixa a família para conquistar sua independência, mas descobre que viver sozinha também envolve solidão e insegurança. Já no premiado “A Viagem de Chihiro” (2001), a protagonista precisa trabalhar em um mundo habitado por espíritos para salvar os pais. Inicialmente assustada e desesperançosa, ela aprende a tomar decisões e confiar nas próprias capacidades.
No longa “O Castelo Animado” (2004), Sophie enfrenta outra transformação ao ser amaldiçoada e assumir a aparência de uma senhora idosa. A mudança, porém, não a impede de buscar seu lugar no mundo. Ao longo da história, ela desenvolve uma autonomia que contrasta com a insegurança do início, enquanto questiona padrões de beleza e a maneira como a idade influencia a percepção que temos de nós mesmos.
A San, de “Princesa Mononoke” (1997), apresenta uma personalidade diferente. Criada por lobos, ela luta para proteger a floresta e enfrenta os humanos que ameaçam seu território. Sua determinação, assim como as escolhas de outras protagonistas de Miyazaki, não a torna perfeita: são justamente suas contradições que dão profundidade à personagem.
De uma jovem bruxa a uma mulher presa em um corpo envelhecido, Miyazaki apresenta protagonistas que não precisam ser invulneráveis para demonstrar força. Elas crescem ao enfrentar dificuldades, assumir responsabilidades e descobrir quem desejam ser, sem depender de um único modelo de heroísmo feminino.
“O Menino e a Garça” e o retorno à direção
Depois de anunciar sua aposentadoria em diferentes momentos da carreira, Miyazaki voltou a dirigir um longa com “O Menino e a Garça” (2023), lançado dez anos após “Vidas ao Vento”. A história acompanha Mahito, um menino que enfrenta a morte da mãe durante a guerra e encontra uma passagem para um mundo misterioso ao seguir uma garça.
O filme reúne temas recorrentes em sua trajetória, como o luto, a memória, os conflitos entre gerações e a dificuldade de lidar com mudanças irreversíveis. Em vez de explicar cada acontecimento, a narrativa mistura realidade e fantasia e deixa espaço para interpretações do público.
A produção venceu o Oscar de Melhor Filme de Animação em 2024, tornando-se a segunda obra de Miyazaki a conquistar a categoria, depois de “A Viagem de Chihiro”, premiada em 2003. Além disso, em 2014, o cineasta também recebeu um Oscar honorário por sua contribuição ao cinema.

O legado de Hayao Miyazaki vai muito além dos prêmios conquistados e do reconhecimento internacional. Ao longo de décadas, o diretor transformou a animação em um espaço para explorar temas que são frequentemente deixados de lado. Em seus filmes, heróis e vilões raramente são definidos por respostas simples, e até os mundos mais fantásticos refletem conflitos da vida real.
Essa abordagem conquistou públicos de diferentes gerações e levou o cineasta a vencer dois Oscars de Melhor Animação, por “A Viagem de Chihiro” e “O Menino e a Garça”. Mesmo quando suas histórias terminam, as questões que levantam permanecem: como conviver com as diferenças, qual é o preço do progresso e o que significa crescer em um mundo cheio de contradições. Assim, nessa combinação de fantasia e reflexão, é onde seu cinema se torna forte e duradouro.
Créditos da capa: Reprodução/Montagem
