Ale McHaddo utiliza o universo nordestino e a imaginação futurista como base para uma animação de identidade própria
Já pensou em como seria o sertão repleto de tecnologia, viagens no tempo e aventuras intergaláticas? Essa é a proposta de “Cordélicos: A Origem do Cabra da Peste”, animação brasileira produzida pelo estúdio 44 Toons e dirigida por Ale McHaddo.
A trama acompanha um grupo de aventureiros do sertão brasileiro que é transportado para o ano de 3333, no Neo Nordeste. Nesse cenário futurista, os protagonistas precisam encontrar uma maneira de escapar do temido Cabra da Peste. A partir desse ponto de partida, o filme desenvolve a origem do vilão em uma aventura repleta de ação, humor e referências à cultura popular brasileira.
O longa-metragem se destaca principalmente pela valorização do cordel, do humor regional e das tradições nordestinas, criando identidade própria que se diferencia das produções mais genéricas do gênero.
Voltado principalmente para o público infantil, o filme aposta em personagens carismáticos e situações divertidas para conquistar o público. O elenco de voz reúne nomes como Bruno Garcia como Capitão Rocha, Carol Goes como Rimbi, Marcelo Mansfield como Cabra da Peste, Luiz Felipe Mazzoni como Tatux e Corisco, Tadeu Mello como Siv e Raissa Xavier como Bonita.
A participação do ator, humorista e cantor Falcão como Falcão Espacial é um dos destaques da produção. O artista fortalece a identidade regional, tornando momentos em uma aventura bem-humorada.
Uma jornada pelo sertão futurista contada em cordel

A narrativa se desenvolve a partir da jornada dos protagonistas em um futuro desconhecido, utilizando tecnologias e viagens no tempo como motores centrais da história. Esse recurso permite explorar diferentes cenários e situações, mantendo a aventura dinâmica. Embora a premissa seja simples, ela desperta a curiosidade do espectador sobre os rumos da trama e o destino dos heróis.
O roteiro é recheado de diálogos e situações hilárias, incorporando elementos da cultura nordestina de forma orgânica. O cordel, as expressões populares e as referências ao sertão vão além da ambientação, contribuindo para a construção dos personagens e identidade do universo apresentado.
Por outro lado, o desenvolvimento dramático poderia ser mais aprofundado. Em alguns momentos, a narrativa apresenta um ritmo arrastado, dedicando espaço a conflitos que pouco acrescentam à trama e ao crescimento de seus personagens. Ainda assim, o longa consegue cumprir o seu papel em oferecer uma experiência leve, criativa e repleta de referências culturais.
O sertão reinventado em um futuro tecnológico
Visualmente, “Cordélicos: A Origem do Cabra da Peste” combina elementos tradicionais do sertão e cenários futuristas. A direção de Ale McHaddo estabelece um contraste interessante entre a cultura dos cangaceiros e o ambiente tecnológico em que a aventura acontece.
O design de personagens contém traços caricaturais e expressivos, característica comum nas animações voltadas ao público infantil. As feições exageradas ajudam a reforçar o humor presente na obra e facilitam a identificação das personalidades de cada personagem. Ainda mais, os figurinos inspirados no cangaço e na cultura nordestina fortalecem a ambientação proposta pelo filme.
Outro destaque está nas paletas de cores, que utilizam os tons quentes em diversos momentos, remetendo às paisagens do sertão. Mesmo em ambientes futuristas, a animação preserva elementos visuais que mantém sua identidade regional.
Uma jornada que não alcança todo o seu potencial

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Apesar da proposta criativa e de forte identidade cultural, “Cordélicos: A Origem do Cabra da Peste” apresenta algumas limitações. A qualidade da animação varia ao longo do filme, com certos movimentos e sequências de ação demonstrando pouca fluidez. Como resultado, algumas cenas perdem o impacto e o dinamismo que a animação busca transmitir.
Outro aspecto que pode causar estranhamento é o uso frequente de gírias, expressões em inglês e referências à cultura pop internacional. Apesar dessas escolhas contribuírem para o tom descontraído da obra e aproximem do público infanto-juvenil, acabam entrando em conflito com a proposta da valorização da cultura nordestina. Tais referências parecem deslocadas dentro do universo construído.
Além disso, o filme nem sempre aproveita todo o potencial de sua premissa. A combinação entre sertão, ficção científica e viagens no tempo oferece inúmeras possibilidades criativas, porém algumas ideias são apresentadas de forma superficial. Um maior aproveitamento dos personagens poderia enriquecer a experiência e tornar a jornada ainda mais memorável.
Vale a pena assistir “Cordélicos: A Origem do Cabra da Peste”?
Sim. Apesar de algumas limitações na animação e no desenvolvimento dos personagens, a animação nacional se destaca pela criatividade ao unir cultura nordestina, cordel e ficção científica. O longa consegue divertir o espectador através das personalidades carismáticas de seus personagens, dos bordões e momentos cômicos espalhados ao longo da narrativa. Ale McHaddo entrega uma aventura leve e divertida, capaz de agradar tanto público infantil quanto adulto.
A animação brasileira “Cordélicos: A Origem do Cabra da Peste” está disponível nos cinemas.
Imagem de capa: Retrato Filmes/Reprodução
FICHA TÉCNICA
Direção e roteiro | Ale McHaddo
Produção | 44 filmes, 44 Toons
Elenco de voz | Falcão, Bruno Garcia, Carol Goes, Marcelo Mansfield, Luiz Felipe Mazzoni, Tadeu Mello e Raissa Xavier
Idioma original | Português
Gênero | Animação
Duração | 73 minutos
País e ano de produção | Brasil, 2024
Distribuição | Retrato Filmes

