Existe um tipo de terror que nasce da atmosfera, da sugestão, do desconforto silencioso e “Dolly – A Boneca Maldita” até flerta com isso nos primeiros minutos. A ideia de um casal em crise, isolado em uma floresta repleta de bonecas penduradas como se fossem testemunhas silenciosas de algo maligno, é genuinamente interessante. Há ali um potencial simbólico forte, especialmente quando o roteiro sugere temas como maternidade, compromisso e medo do futuro. É o tipo de base que poderia sustentar um terror psicológico eficiente.

Dirigido por Rod Blackhurst, Dolly tenta mergulhar no terror exploitation (subgênero, popularizado nos anos 1970, focado no sensacionalismo, baixíssimo orçamento e temas chocantes) com uma abordagem mais crua e desconfortável. O roteiro é de David Ebeltoft, que aposta em elementos de horror psicológico misturados com violência extrema e body horror. No elenco, o destaque fica para Fabianne Therese, que interpreta Macy, protagonista da trama, além de Seann William Scott (American Pie) vivendo Chase, e da lutadora Max the Impaler, responsável por interpretar a perturbadora Dolly. O filme ainda conta com a participação de Ethan Suplee em um papel coadjuvante marcado pelo exagero grotesco que domina toda a produção.

Mas o filme rapidamente abandona qualquer tentativa de profundidade. O longa parece mais interessado em provocar desconforto imediato do que em construir tensão de forma consistente. O que começa como algo intrigante se transforma, em pouco tempo, em uma sequência de decisões narrativas sem lógica, onde personagens agem sem qualquer instinto de sobrevivência e a história simplesmente não evolui. A sensação é de assistir a um rascunho mal desenvolvido de algo que poderia ter sido muito melhor.

Violência gratuita e execução amadora

Dolly - A Boneca Maldita foto 2
Crédito: Divulgação

“Dolly – A Boneca Maldita” quer te chocar. O problema é que esse choque vem desacompanhado de qualquer propósito narrativo. A violência é gratuita, a produção não se preocupa em construir tensão, não desenvolve personagens e não contribui para a história, ela apenas existe, crua, exagerada e, muitas vezes, completamente sem sentido.

O exemplo mais gritante disso é uma cena em que um personagem tem a boca cortada ao meio… e continua vivo, consciente e falando normalmente. Não há explicação, não há consequência, não há lógica interna. É simplesmente algo jogado na tela como se o impacto visual fosse suficiente para sustentar o momento. Não é. Pelo contrário, esse tipo de escolha quebra completamente a imersão e evidencia o descaso do roteiro com sua própria coerência.

Com o tempo, o que deveria causar medo passa a gerar apenas cansaço. A crueldade se torna repetitiva, o grotesco perde impacto e o filme mergulha em uma espiral de excessos que afastam o espectador em vez de envolvê-lo.

Visualmente, “Dolly – A Boneca Maldita” até tem algo a oferecer. Filmado em 16mm, o longa aposta em uma estética granulada que remete ao terror exploitation dos anos 70, evocando referências claras a filmes sujos, desconfortáveis e provocativos. Em teoria, é uma escolha que poderia fortalecer a identidade do filme.

Na prática, porém, essa estética nunca se completa. O longa parece indeciso entre abraçar totalmente esse estilo retrô ou misturá-lo com elementos modernos que quebram a imersão. O resultado é inconsistente. Há momentos em que a fotografia funciona, criando imagens perturbadoras e interessantes, mas eles são isolados e não sustentam uma visão coesa. Além disso, a direção carece de ritmo e controle. Falta tensão, falta progressão e, principalmente, falta propósito.

Personagens vazios e uma narrativa que não anda

Dolly - A Boneca Maldita foto 1
Crédito: Divulgação

Outro grande problema de “Dolly – A Boneca Maldita” está em seus personagens. Apesar de um ponto de partida interessante, o filme não desenvolve mais nada. A protagonista passa boa parte do filme reagindo de forma apática aos acontecimentos, enquanto a narrativa repete situações sem qualquer avanço significativo. Mesmo com pouco mais de 80 minutos, o longa consegue parecer arrastado, como se estivesse constantemente preso no mesmo lugar.

A própria antagonista, apesar de visualmente marcante, nunca vai além da superfície. Falta contexto, falta construção, falta qualquer elemento que transforme a ameaça em algo realmente memorável. Falta praticamente tudo.

Seria injusto dizer que “Dolly – A Boneca Maldita” não tem qualidades. Existem momentos em que a atmosfera funciona, em que a presença física da vilã causa desconforto e em que a direção sugere algo mais interessante. Mas esses momentos são raros e nunca se sustentam.

Sempre que o filme parece encontrar algum caminho, ele volta ao excesso, ao choque fácil, à falta de lógica. É como se tivesse boas ideias, mas nenhuma capacidade de desenvolvê-las.

Vale a pena assistir “Dolly – A Boneca Maldita”?

“Dolly – A Boneca Maldita” é um filme que confunde extremo com profundidade. Ele aposta no grotesco, na violência e no desconforto visual, mas esquece do essencial que é contar uma boa história. É perturbador? Sim. É nojento? astante. Mas também é vazio, incoerente e, acima de tudo, ruim.

“Dolly – A Boneca Maldita” está em cartaz em alguns cinemas no Brasil.

Crédito: Divulgação

“Dolly – A Boneca Maldita”  (Dolly, Estados Unidos, 2026, 1h 56min) – Ação, Aventura, Fantasia
Direção: Rod Blackhurst
Roteiro: Rod BlackhurstBrandon Weavil
Elenco Principal: Fabianne ThereseRuss TillerMichalina Scorzelli
Produtor: Ross O’Connor, Rod Blackhurst, Noah Lang, José C. Grano, Isaías Pequeno homem, Bryce McGuire, Betty Tong, Esteban Sanchez
Produção: Witchcraft Motion Picture Company
Fotografia: Justin Derry
Música: Rod Blackhurst
Classificação: 18 anos
Distribuição: Paris Pictures.

Dolly - A Boneca Maldita poster
Crédito: Divulgação

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