Mais de 20 anos após o lançamento do filme, a produção da HBO encontrou uma maneira de revisitar a Cidade de Deus

Em 2002, “Cidade de Deus” chegou aos cinemas e apresentou ao mundo uma história sobre violência, desigualdade e sobrevivência na periferia do Rio de Janeiro. Mais de duas décadas depois, o universo do filme continua rendendo novas histórias: a segunda temporada de “Cidade de Deus: A Luta Não Para” estreia em 8 de novembro na HBO Max, trazendo novos conflitos para personagens já conhecidos pelo público.

Dirigido por Fernando Meirelles e Kátia Lund, o longa conquistou reconhecimento internacional e recebeu quatro indicações Oscar. Com a estreia da segunda temporada se aproximando, a produção volta ao centro das atenções e levanta uma questão: o que levou a equipe a transformar o clássico do cinema brasileiro em uma série?

No entanto, para entender como a continuação ganhou forma, é preciso voltar ao período em que a ideia de adaptar o filme para a televisão começou a circular. Naquele momento, nem todos os envolvidos estavam convencidos de que valia a pena retornar à história.

A ideia que Fernando Meirelles não planejava tirar do papel

A iniciativa partiu de Andrea Barata Ribeiro, produtora e sócia de Meirelles na O2 Filmes. Em entrevista ao Tangerina, o cineasta contou que não tinha planos de desenvolver uma continuação de “Cidade de Deus”. No entanto, algo mudou quando surgiu a possibilidade de outra produtora assumir a adaptação.

Produtores franceses demonstraram interesse em levar a obra para a televisão e procuraram a Disney, que distribuía internacionalmente o longa por meio da Miramax, para negociar os direitos. A movimentação chamou a atenção de Andrea, que viu uma oportunidade de desenvolver o projeto com a equipe brasileira.

Ela insistiu na ideia e decidiu garantir os direitos para viabilizar a produção. Meirelles acabou envolvido no desenvolvimento, e a proposta começou a tomar forma. Assim, a série nasceu de uma situação que não fazia parte dos planos iniciais do diretor.

O episódio ajuda a explicar por que a continuação demorou a chegar ao público. Antes de definir personagens, roteiro e direção, a equipe precisou transformar uma oportunidade de negociação em um projeto audiovisual concreto.

Por que contar essa história em formato de série?

Com o projeto em desenvolvimento, surgiu outra questão: como voltar à Cidade de Deus sem repetir a narrativa do filme? A equipe precisava encontrar um caminho que preservasse a identidade da obra original, mas também justificasse a existência de uma nova produção.

O formato seriado ofereceu espaço para desenvolver personagens e conflitos que não receberam tanta atenção no longa. Assim, em vez de reconstruir a trajetória já conhecida, a produção poderia avançar no tempo e explorar as transformações da comunidade.

O desenvolvimento reuniu profissionais com diferentes experiências no audiovisual. Sérgio Machado organizou a sala de roteiro, que contou com nomes como Renata Di Carmo, Armando Praça, Estevão Ribeiro e Rodrigo Felha. Desse modo, a participação de roteiristas com vínculos com a comunidade também contribuiu para ampliar as perspectivas apresentadas na tela.

Edson Oliveira, Alexandre Rodrigues e Roberta Rodrigues em Cidade de Deus: A Luta Não Para (2024)
Roberta Rodrigues, Edson Oliveira e Alexandre Rodrigues vivem personagens marcados pelos conflitos de “Cidade de Deus: A Luta Não Para” (2024). | Créditos: Reprodução

Trama amplia o protagonismo de Buscapé, mas aposta também em outros personagens

Lançada em 2024, “Cidade de Deus: A Luta Não Para” se passa em 2004, aproximadamente duas décadas após os acontecimentos do filme. Assim, a trama acompanha novamente Buscapé, interpretado por Alexandre Rodrigues, que agora trabalha como fotógrafo e registra as mudanças na comunidade.

Uma nova disputa territorial movimenta a história após a saída de um jovem traficante da prisão. Os moradores passam a enfrentar conflitos envolvendo traficantes, milicianos e agentes do poder público, enquanto tentam encontrar alternativas para a violência que atravessa o cotidiano local.

A série também amplia o espaço de personagens como Berenice, vivida por Roberta Rodrigues. Sua trajetória ganha importância na discussão sobre resistência e sobre as possibilidades de romper com o ciclo do crime.

Essa perspectiva diferencia a continuação do longa original. Embora a violência continue no centro dos conflitos, a série também procura mostrar as relações entre os moradores, suas iniciativas e as diferentes maneiras de enfrentar os problemas da comunidade.

A direção-geral ficou a cargo de Aly Muritiba, com Bruno Costa também na direção. Ademais, a produção é da O2 Filmes, em parceria com a HBO.

Créditos da capa: Divulgação/HBO Max