Até quem não entende de futebol conhece o Zico. Como figura geracional, ele conquista a admiração dos avôs, pais, tios e primos de todo brasileiro. Mas, para além do herói nacional e craque do jogo, existe um homem que carrega até hoje os ensinamentos da infância e os aplica na vida pública. É esse o panorama que o novo documentário “Zico: O Samurai de Quintino” busca explorar.

Com direção de João Wainer, a obra conta a história de Arthur Antunes Coimbra, o Zico, de maneira saudosista e respeitosa. A partir de um acervo pessoal de fitas VHS com gravações que acompanham a trajetória do ex-jogador e ex-técnico, o documentário resgata memórias e as molda para uma nova geração.

Mas, para quem já conhece o atleta, histórias nunca antes compartilhadas e lembranças afetuosas ainda chegam a surpreender. Assim, o projeto, que conta com produção da Vudoo Filmes e Guará Entretenimento, humaniza uma figura pública que se sustenta na idolatração. Chegou a hora de conhecer o homem por trás do mito.

O mito como homem

Com um foco nas relações pessoais de Zico com a esposa Sandra, os filhos, netos e amigos, o espectador tem um certo senso de descoberta ativa na relação entre o privado e o particular. É interessante olhar para as conquistas, os gols e os avanços, mas é mais legal ainda ver uma versão mais velha do craque comentando sobre os desafios e derrotas. Assim, cenas como as em que Zico reflete sobre a perda de seu amigo e parceiro de bola, Geraldo Assoviador, e o relato sobre sua lesão no joelho em 1985 trazem profundidade para uma imagem antes irretocável.

Além disso, a multipluralidade de vozes que participam da narrativa ajudam a “desmontar” essa ideia do ídolo imbatível. Por mais que não exista um contraponto real na história, ou alguma tentativa mais potente de questionamento, a investigação da jornada de Zico é costurada com depoimentos de colegas e familiares. Nomes como Ronaldo Fenômeno, Júnior Maestro, Carpegiani e Carlos Alberto Parreira marcam presença.

Parreira, Ronaldo Fenômeno e Zico | Crédito: Divulgação

Essa escolha também é refletida na montagem e edição do documentário, que mescla filmes Super-8 dos anos 70 e 80 com as imagens atuais. Trazendo uma sensação de resgate histórico e uma pitada de familiaridade, os registros funcionam como uma ferramenta interessante na construção da narrativa.

Impacto de Zico no Futebol

Um aspecto que se destaca no projeto de Wainer é a maneira como ele vai além de uma vanglorização do ídolo, explorando seu impacto em diferentes áreas do futebol. Da construção de um dos mais emblemáticos times do Flamengo, às copas que contaram com suas marcações de faltas, até o desenvolvimento do futebol japonês.

Aqui, as diversas aparições ganham ainda mais força e expandem o ponto de vista levantado pelo diretor. As imagens da época do Zico no Japão, junto com sua visita recente ao lado de seu tradutor, evocam um sentimento de retorno para casa. Dividido entre os dois continentes, em momentos diferentes da carreira, o craque se envolve de corpo e alma na construção de um legado focado inteiramente no futebol.

Vale a pena assistir “Zico: O Samurai de Quintino”?

Sim. Para os fãs de futebol e para os amantes de uma boa história. Sem apelações descaradas, o documentário mostra como todas essas histórias se cruzam, destacando a personalidade e o foco de Zico como peças chaves do quebra-cabeça. Em alguns momentos, o filme mergulha em temas delicados, como o impacto da ausência dele na vida de seus filhos e o impacto da ditadura militar na sua família ao longo da infância.

Essas diferentes facetas funcionam bem porque existe uma certa abertura em explorar a verdade, do jeito que ela é, pelo atleta. A partir de uma edição não totalmente convencional, o documentário segue a direção do craque e permite equilibrar sentimento e objetividade. Com foco, sede por vitória e respeito pelo trajeto, o título de “samurai” lhe cai muito bem.

Zico: O Samurai de Quintino
Brasil| 2026 | Documentário | 103 min.
Diretor: João Wainer
Roteiro: 
Thiago Iacocca
Montagem: 
André Felipe Silva e João Wainer
Distribuidora: 
Vudoo Filmes e Guará Entretenimento

Imagem de capa: Divulgação