Escritora e pesquisadora falou sobre o livro “Iemanjá em Mares Verdes“
A geógrafa, pesquisadora e professora Ilaina Damasceno escreveu seu livro “Iemanjá em Mares Verdes” durante seu doutorado na Universidade Federal de Fortaleza (UFF). A autora realiza uma pesquisa sobre a Festa de Iemanjá, considerada patrimônio imaterial em 2018.
Tendo a festa que acontece há mais de 50 anos como tema central, a autora realiza uma pesquisa ampla sobre as religiões de matriz africana. Dessa forma, analisa as influências na nossa cultura e por que festividades como essa são importantes. Em entrevista ao GeekPop News, Ilaina Damasceno falou sobre a obra, assim como refletiu sobre sua carreira como escritora.
Você pode se apresentar para os nossos leitores com as suas próprias palavras?
Sou Ilaina Damasceno, cambone da Tenda Espírita do Boiadeiro. Filha de uma professora da educação básica e neta de uma mulher analfabeta que adorava livros e ouvir histórias de aventura.
Minha paixão por livros, especialmente os ilustrados, resulta da relação com minha avó e a importância que as imagens tinham para que ela pudesse folhear os livros quando não havia alguém disponível para fazer a leitura em voz alta. Atualmente trabalho como professora na Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e integro o Núcleo de Estudos Afro-brasileiros (Neab/Uerj).
Como as suas origens e a sua religião moldaram o seu processo criativo como escritora?
Nasci em Quixadá, no Ceará. Município conhecido pelos monólitos ou campos de inselbergs, formações rochosas que tornam a paisagem ímpar, tanto que muitas películas brasileiras foram filmadas na cidade.
Quixadá é uma cidade do interior do Brasil como muitas outras, mas com personagens muito pitorescos e uma paisagem digna do cinema. Não só para representar o sertão e as agruras de quem vive sob o sol escaldante, mas também, para mostrar o que pode surgir de um local de confluência entre natureza, poesia de cordel e cantoria de repente.
Quando criança, lembro das “batalhas de repente” e de ouvir os mais velhos recitarem cordeis. Mesmo os adultos e idosos analfabetos recitavam cordéis e improvisavam rimas como as ouvidas nas cantorias de repente.
Assim, minha religião e minha cidade natal integram minhas experiências de vida e participam do processo criativo tanto na escolha dos temas, sobre os quais desejo escrever, quanto na ambientação das histórias que gosto de contar. Pois, eles tornam a teia de significados das narrativas mais vívida e permitem que outros sujeitos se reconheçam nas histórias.
Vamos falar sobre o seu livro. De onde veio a ideia para o título “Iemanjá em Mares Verdes”. O que a rainha do mar representa na sua vida?
O livro é um ensaio sobre a festa de Iemanjá em Fortaleza, capital do Ceará. A expressão “mares verdes” é um trocadilho de uma expressão presente na primeira frase do romance de José de Alencar “Iracema: lenda do Ceará”. Alencar destaca a natureza local, ressaltando a cor do mar de Fortaleza, cuja tonalidade se distingue daquela encontrada em outros locais do Nordeste e do Brasil.
A frase, “Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba…” inaugura o texto literário, publicado em 1865. O romance, considerado por Machado de Assis um poema em prosa, narra liricamente a natureza do estado, associando-a a fatos históricos.
Além disso, o livro de Alencar também é considerado um registro do mito fundador do estado do Ceará. Essa narrativa ressalta a formação da população a partir do amor entre um português e uma mulher indígena.
Colocar a expressão “mares verdes” no título é uma homenagem à poética do texto alencarino, à busca de identificação da população cearense com o título e ao questionamento de um mito fundador que exclui a população negra.
O título “Iemanjá em Mares Verdes” situa o leitor sobre o local da festa e torna a orixá parte indissociável do elemento mais narrado sobre a cidade de Fortaleza, a beleza do mar e de suas praias. Iemanjá, para mim e, posso afirmar, para os demais praticantes da umbanda, vem a ser a força feminina que faz nascer e sustenta a vida.
A obra celebra a Festa de Iemanjá em Fortaleza. Como essa festa foi importante na sua vida e como impacta na história da cidade?
A Festa de Iemanjá ocorre em Fortaleza há mais de cinquenta anos na orla marítima e em algumas lagoas. Narrar a espacialidade da festa é descrever como as religiões afro-brasileiras ocuparam e ocupam a cidade, inclusive nos indica as táticas de sobrevivência e permanência utilizadas pelas comunidades de terreiro.
Quando lemos a história do município, vemos uma sociedade que historicamente persegue e criminaliza a diferença e a diversidade, amparada em leis e narrativas estigmatizantes sustentadas pelo colonialismo e pelo escravização de pessoas negras.
Atualmente, apesar de termos leis em defesa da liberdade religiosa e combate ao racismo, observamos os efeitos persistentes e duradouros do colonialismo. Imagens preconceituosas sobre a umbanda são recuperadas e difundidas como parte de um discurso de verdade.
Qual é a importância da preservação do patrimônio imaterial?
Patrimônios imateriais representam saberes, modos de fazer e modos de viver de populações subalternizadas. No Brasil, quando observamos os patrimônios tombados pelo IPHAN, observamos que grande parte são patrimônios negros, indígenas e de comunidades tradicionais.
Significa que o patrimônio imaterial cumpre um papel político de reconhecer as contribuições de diferentes sujeitos e culturas para a formação da cultura brasileira. Além do tombamento, temos a salvaguarda, que permite aos grupos e sujeitos que experimentam cotidianamente o bem cultural participarem das decisões sobre as ações e políticas para a manutenção da prática ou conhecimento.
A Festa de Iemanjá em Fortaleza deve ser preservada porque, além dos saberes e fazeres tradicionais, culinária, vestimenta, canto e dança, temos uma referência política sobre como as religiões afro-brasileiras e africanas ao longo dos anos se organizaram para ganhar visibilidade e garantir suas existências. Desse modo, estar no espaço público, escolher em quais locais a presença será realizada é uma forma de construir para si formas de visibilidade.
Como você enxerga a ligação entre a tradição nordestina e a herança africana?
No Ceará, historicamente, temos um discurso de que não há negros no estado. Há muitas interpretações historiográficas e sociológicas para a questão. Vou ressaltar duas muito significativas porque evidenciam como a literatura e o texto ensaístico são capazes de construir e orientar a memória social.
O mito fundador do povoamento do estado do Ceará e da nação brasileira aparece no romance “Iracema”, de José de Alencar. Iracema é abandonada pelo português Martim, que retorna à terra natal, e dá à luz a Moacir, “o filho da dor”. Após o parto, Iracema morre de tristeza e solidão.
Moacir representa o nascimento do Brasil como nação formada pela miscigenação entre indígenas e portugueses, mas, como o próprio romance destaca, sem a presença de nenhum desses sujeitos. Para que algo completamente novo possa existir.
O surgimento da nação brasileira é dado pelo que, por muito tempo, foi nomeado como caboclo. Resultado da miscigenação, teoria que ajudava a sustentar o mito da democracia racial. O negro não aparece no livro. Pois não há interesse de construir nenhuma narrativa sobre a nação na qual homens e mulheres negras estejam presentes.
A abolição na história do Ceará e o apagamento dos negros na história
No Ceará, essa narrativa é reforçada quando do processo de abolição da escravidão, em 1884, quatro anos antes da promulgação da Lei Áurea, que permitiu ao estado a alcunha de “Terra da Luz”. Antes da abolição no Ceará, em virtude da seca de 1877-1879, muitos escravizados foram vendidos para outras províncias, por isso o contingente já era bastante reduzido no momento da abolição.
No entanto, pesquisas recentes apontam que essa é uma narrativa que inviabiliza outros sujeitos, especialmente negros alforriados. Além de Chico da Matilde, louvado como mártir, mulato que nunca havia sido escravo, considerado de boa aparência e com noções de inglês e alemão.
Havia José Napoleão, esquecido da história oficial, jangadeiro liberto que havia comprado sua alforria e a de seu irmão por meio do trabalho, o qual teria sido mentor e líder do movimento que fechou o porto ao tráfico de escravizados. O mito fundador da nação, e do Ceará, e a narrativa sobre a abolição evidenciam que não há divergência entre a tradição/herança nordestina e a tradição/herança negra.
Qual é a mensagem central que você quer passar com o livro?
A importância de escrevermos nossas próprias histórias. A festa de Iemanjá em Fortaleza, apesar de existir há mais de 50 anos e haver estudos acadêmicos no campo da antropologia sobre o evento, até o momento não havia ganho um ensaio que divulgasse a festa e abordasse as condições de existência dos umbandistas na capital cearense. O livro “Iemanjá em mares verdes” cumpre essa lacuna.
Além disso, houve um esforço para que o material fosse acessível ao maior número de leitores. Foram retiradas do texto citações e a estrutura acadêmica que caracterizam as teses de doutorado. Uma escolha intencional para tornar o livro atraente para o leitor não acadêmico. Escrever nossas histórias é abordar temas relevantes para nós, comunidades de terreiro, a partir de uma perspectiva respeitosa das nossas crenças, valores e modos de convivência.
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Qual é sua mensagem de combate à intolerância religiosa, que infelizmente ainda persiste?
A intolerância religiosa contra religiões de matrizes afro-brasileiras é melhor descrita como racismo religioso. O racismo religioso é uma das heranças mais persistentes do colonialismo. As divindades, práticas, rituais e objetos sagrados são criminalizados, a partir de leituras eurocêntricas e cristãs.
Para enfrentar o racismo religioso, é necessário compreender e combater o racismo estrutural da sociedade brasileira e as práticas e ideias racistas que se perpetuam mesmo no século XXI. Isso só é possível por meio de uma educação antirracista, das leis de proteção à diversidade religiosa e políticas de promoção da igualdade racial.
A educação antirracista reconhece as epistemologias negras e modos de aprender que orientam outras perspectivas de sociedade. As leis atuam na garantia de direitos e na proteção à liberdade religiosa e de culto. As políticas públicas para reparar as consequências estruturais do colonialismo e da escravização de seres humanos.
Qual o conselho que você daria para os escritores que estão começando agora?
Artistas e escritores, artistas das palavras, gostam muito de falar de processo criativo. Muitas vezes, ao ouvirmos sobre, ficamos paralisados, sem saber como dedicar tanto tempo para uma atividade quando temos urgências da vida cotidiana para atender, trabalho, estudos, cuidado com filhos etc. São tantas demandas que, para muitas pessoas, pode faltar tempo até para ler.
Por isso, prefiro falar de planejamento e disciplina.
Não é o planejamento e disciplina que levam à produtividade. Para qualquer um fazer mais em menos tempo. Mas, das estratégias simples que permitem a qualquer um ler, tranquilamente, e escrever, aos poucos.
Primeiro, faça uma única coisa. Eu tenho muitas ideias, anoto todas em um caderno e em formato digital, mas executo apenas uma por vez. Não significa dizer que você não possa alternar entre textos, suportes e estilos, mas ao definir o foco, seu pensamento se dedica a responder às questões do original no qual está trabalhando. Com tempo reduzido, saber o que você precisa executar primeiro e manter-se atento àquele tema e estilo de texto ajuda a escrita a fluir.
Segundo, seja obcecado pela qualidade. Escreva, leia, revise, altere palavras e retire do texto qualquer excesso. Nenhum texto fica bom no rascunho, será necessário editá-lo inúmeras vezes. O ato de escolher as palavras mais adequadas, a posição das mesmas no texto e decidir o que pode-se retirar sem prejuízo de compreensão ou da poética são habilidades que se adquirem com a paciência de refazer.
Terceiro, talvez o mais óbvio, termine o que você começou. Você não será um escritor se deixar seus textos inacabados e não tiver coragem de colocá-los no mundo. Não se preocupe com críticas, a cada conto, fábula, romance ou ensaio você se tornará um escritor melhor e reconhecerá seu estilo e temas de interesse.
Imagem de capa: Divulgação
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