Quem vai ao cinema nos últimos anos talvez já tenha se deparado com uma cena cada vez mais comum: fãs fantasiados de seus personagens favoritos, grupos que combinam looks e acessórios temáticos e sessões de filmes que mais parecem grandes eventos do que uma simples ida ao cinema. 

Mas essa mobilização não acontece apenas presencialmente. Nas redes sociais, edits, trends, memes e recomendações espontâneas podem transformar filmes em fenômenos virais e ajudam produções a conquistar públicos que talvez nem as conhecessem. Em alguns casos, o próprio engajamento dos fãs chega a impulsionar a bilheteria e prolongar a repercussão de um lançamento.

Talvez essas mudanças não sejam tão perceptíveis, mas esses grupos de fãs, os chamados fandoms, têm ganhado cada vez mais espaço na indústria cinematográfica. Mais do que consumidores, essas comunidades se tornaram agentes ativos na divulgação, na recepção e até nas decisões de marketing que envolvem grandes produções. Mas até que ponto essa influência tem transformado a maneira como Hollywood produz, divulga e se relaciona com seu público?

A experiência de ir ao cinema mudou

Desde a popularização das plataformas digitais, assistir a um filme tornou-se uma atividade cada vez mais prática e acessível. Ainda assim, as salas de cinema continuam atraindo milhares de espectadores. No Brasil, por exemplo, o público nas telonas cresceu 9,8% em 2024, na comparação com o ano anterior, segundo dados da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Mas o que justificaria deixar o conforto de casa e gastar com ingresso, transporte e alimentação para assistir a um filme que, eventualmente, estará disponível nas plataformas digitais?

Para uma parcela cada vez mais engajada do público, a resposta pode estar na experiência coletiva: ir ao cinema deixou de ser apenas um programa para assistir a um filme e passou a ser um evento em si. Afinal, o que poderia tornar a experiência mais especial do que dividir a sessão com milhares de pessoas que compartilham os mesmos interesses e a mesma paixão por uma história?

Uma das manifestações mais visíveis desse comportamento é o uso de roupas temáticas e fantasias durante as estreias. O fenômeno ganhou mais visibilidade em 2023, com o lançamento de “Barbie“. Impulsionados pela identidade visual do filme e pela repercussão nas redes sociais, diversos espectadores passaram a adotar roupas cor-de-rosa e peças inspiradas na personagem para assistir à estreia.

Barbie se tornou o filme de maior bilheteria de 2023, arrecadando impressionantes US$ 1,44 bilhão mundialmente. (Créditos: Arquivo Pessoal)

A própria campanha promocional do filme chegou a explorar essa estética e, durante a turnê de divulgação, Margot Robbie, atriz que interpreta Barbie, apareceu com looks que recriavam figurinos icônicos da boneca, em uma estratégia conhecida como method dressing. A prática é comum entre atores que incorporam referências visuais de seus personagens ou filmes às roupas usadas em eventos, entrevistas e estreias.

Com a repercussão de Barbie, o hábito de se vestir como personagens, que antes era mais associado a grupos específicos de fãs de franquias como Marvel e Star Wars, ganhou uma dimensão ainda maior com a popularização das redes sociais. A partir daí, as roupas temáticas têm passado a fazer parte de diferentes estreias, como “Divertida Mente 2” (2024) e “Wicked” (2024), além de lançamentos mais recentes, como “O Diabo Veste Prada 2” (2026) e “Michael” (2026).

Para além de demonstrar admiração por uma produção, vestir-se de acordo com o universo de um filme passou a ser uma maneira de participar do acontecimento, compartilhar a experiência e fazer parte de uma comunidade.

A força dos fandoms nos cinemas e nas redes sociais

Mais do que apenas espectadores interessados em participar de um evento cinematográfico, grande parte da movimentação que acontece nas redes sociais surge dentro dos próprios fandoms. O termo se refere a comunidades formadas por fãs que compartilham o interesse por uma determinada produção, franquia, artista ou universo ficcional. Esses grupos, por si só, têm uma força econômica significativa e movimentam milhões de dólares para a indústria do entretenimento todos os anos.

Segundo uma pesquisa do relatório Digital Media Trends, da Deloitte, cerca de 80% das pessoas se consideram fãs de ao menos uma categoria de entretenimento. Dentro dessa categoria, os fãs gastam, em média, US$ 15 (R$ 80,7) a mais por mês com serviços de streaming do que não-fãs e chegam a consumir 16% a mais do seu tempo diário consumindo mídia e entretenimento do que outros espectadores.

A pesquisa aponta ainda que a diferença entre fãs e não-fãs vai além do consumo direto. Cerca de 55% dos fãs afirmam que o engajamento com uma franquia, artista ou time os leva a interagir em diferentes plataformas de conteúdo, como Instagram, TikTok e X. Ou seja, o fã não apenas assiste à determinado conteúdo, como também interage, compartilha, compra e participa.

Nos cinemas, recomendações espontâneas através das redes sociais naturalmente ocorrem e podem chegar à viralizar, mas a prática não é tão consistente quanto às que os fãs promovem. Contas de fandoms online viralizam diversas trends, memes e os famosos fan edits, vídeos curtos produzidos por fãs que reúnem cenas, personagens e trilhas sonoras de determinada produção. Esse tipo de conteúdo mantém filmes em circulação nas redes sociais, antes, durante e até depois de sua estreia, ajudando-os a alcançar usuários que talvez não tivessem interesse inicial pela obra.

Um exemplo recente dessa força foi o fenômeno “Barbenheimer”, em 2023, quando os lançamentos de “Barbie” e “Oppenheimer”, no mesmo dia, deram origem a uma mobilização espontânea nas redes sociais. Memes, montagens e publicações incentivando o público a assistir aos dois filmes transformaram a coincidência das estreias em um acontecimento cultural. Outro caso é “Five Nights at Freddy’s” (2025), cuja adaptação cinematográfica contou com uma comunidade de fãs já consolidada, formada principalmente em torno dos jogos, que ajudou a alimentar a expectativa pelo lançamento.

Barbenheimer foi um fenômeno da cultura pop e da internet que surgiu com o lançamento simultâneo nos cinemas, em 20 de julho de 2023. Créditos: Reprodução/IMDb

O futuro da relação entre Hollywood e os fandoms

Com os números cada vez mais impressionantes, fica difícil para os grandes estúdios ignorarem o potencial dessas comunidades. O comportamento dos fãs não influencia apenas a divulgação de um filme depois de pronto, mas também pode ajudar a orientar as apostas da indústria. Diversas franquias já conhecidas e grandes estúdios têm apostado, inclusive, na contratação de fãs para produzir fan edits em suas contas oficiais, aproveitando a linguagem e o estilo de conteúdo que já fazem sucesso dentro dessas comunidades.

Um exemplo é a Lionsgate, que tem adotado essa estratégia na divulgação do novo filme da franquia de Jogos Vorazes, “Jogos Vorazes: Amanhecer na Colheita“. Ao incorporar criadores que já conhecem e acompanham o universo da franquia, o estúdio consegue aproximar suas campanhas da linguagem utilizada pelos próprios fãs, tornando a divulgação mais familiar para esse público e potencialmente alcançando novos espectadores.

Essa relação também pode ser observada nas estratégias de marketing. Atualmente, compreender o comportamento dos fãs, identificar tendências e acompanhar as conversas nas redes sociais se tornou uma maneira de entender o que desperta o interesse do público. Por isso, é cada vez mais comum que os administradores por trás de contas oficiais de grandes empresas, como Netflix e Prime Video, apostem na publicação de memes e outras formas de marketing “orgânico” de suas produções, buscando ampliar o alcance dos conteúdos e fazer com que eles cheguem a cada vez mais pessoas.

Mais do que uma mudança na maneira de consumir filmes, a ascensão dos fandoms representa uma transformação na relação entre espectadores e cinema. O público não quer apenas assistir às histórias: quer participar das conversas, compartilhar experiências e sentir que faz parte daquele universo. E, ao que tudo indica, Hollywood precisará levar essa relação cada vez mais a sério.

Créditos da capa: Reprodução/FreePik