Existe algo imediatamente fascinante em “Vultures: Scavengers of Death”. Antes mesmo do primeiro combate, do primeiro corredor escuro ou da primeira criatura grotesca surgindo no cenário, o jogo já deixa extremamente claro quais são suas inspirações. A estética low-poly (visual minimalista, geométrico e facetado), os ambientes claustrofóbicos, os documentos espalhados pelo mapa e até o clima de conspiração biológica parecem arrancados diretamente da era de ouro do primeiro PlayStation.
Desenvolvido pelo estúdio colombiano independente Team Vultures e publicado pela Firesquid, “Vultures: Scavengers of Death” é um survival horror tático que mistura a atmosfera de jogos como Resident Evil, Silent Hill e XCOM. O jogo coloca o jogador dentro de uma cidade devastada por um desastre biológico enquanto acompanha os agentes Leopoldo e Amber em missões de sobrevivência, exploração e extração de recursos.
Isso poderia facilmente soar preguiçoso. Mas o curioso é que Vultures consegue evitar essa armadilha justamente porque entende muito bem o que fazia os survival horrors dos anos 90 funcionarem. O jogo não quer apenas copiar tais clássicos. Ele quer reinterpretar a tensão deles dentro de uma estrutura completamente diferente, a de a estratégia em turnos.
E essa mistura funciona surpreendentemente bem.
Horror lento, estratégico e cruel

A primeira grande sacada de Vultures é entender que terror não precisa necessariamente depender de sustos rápidos ou perseguições frenéticas. Aqui, o horror nasce da antecipação. Você tem que se preocupar com a munição, com os movimentos e até mesmo com o que pode ter na próxima porta.
O sistema tático transforma qualquer encontro em um quebra-cabeça desesperador. O jogador precisa administrar pontos de ação, posicionamento, munição, cura e até o próprio barulho causado durante a exploração. Em muitos momentos, o combate parece uma mistura desconfortável entre xadrez e sobrevivência.
Existe uma tensão constante em calcular se vale mais a pena tentar um headshot arriscado, fugir, bloquear passagem com objetos ou simplesmente economizar munição e rezar para não existir outro inimigo na próxima sala. Confesso que no início quebrei bastante a cabeça para passar em determinados pontos.
E o mais interessante é que o jogo consegue manter aquela sensação clássica de vulnerabilidade dos antigos survival horrors mesmo sendo totalmente baseado em turnos.
Outro detalhe bastante positivo é que “Vultures: Scavengers of Death” conta com localização em português, algo que ajuda bastante na imersão durante a exploração, leitura de documentos e compreensão da narrativa — especialmente em um jogo que depende tanto de atmosfera e tensão constante.
Resident Evil encontra XCOM

A comparação mais óbvia e inevitável é imaginar Resident Evil misturado com XCOM: Enemy Unknown. E honestamente, a descrição não está errada. Diversos jogadores e previews têm usado exatamente essa definição. Mas Vultures possui identidade suficiente para não parecer apenas um mashup genérico.
Os dois protagonistas jogáveis ajudam bastante nisso. Leopoldo funciona como um personagem mais bruto, capaz de manipular o cenário e controlar espaço físico. Já Amber aposta em mobilidade, furtividade e reposicionamento usando um gancho tático. Essa diferença faz com que as missões tenham abordagens distintas sem cair na repetição imediata.
Além disso, existe um cuidado interessante na forma como o jogo usa exploração ambiental. Chaves, códigos, salas escondidas, documentos fazem parte da experiência o tempo inteiro, reforçando aquele DNA clássico do survival horror que gostamos tanto.
E felizmente o jogo não transforma tudo em combate. Explorar continua sendo tão importante quanto sobreviver.
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O visual parece saído de um VHS amaldiçoado
Visualmente, Vultures entende perfeitamente o apelo nostálgico do terror retrô. Os modelos low-poly, as texturas granuladas, a iluminação pesada e os cenários escuros parecem uma carta de amor aos jogos da geração PS1. Só que diferente de muitos projetos indie que usam nostalgia como muleta estética, em “Vultures: Scavengers of Death” temos uma direção artística autêntica.
O jogo sabe usar limitações visuais para criar atmosfera. Dessa forma, os corredores parecem opressivos, os inimigos são grotescos sem precisar de hiper-realismo. E existe uma sensação constante de decadência naquele mundo contaminado.
Salento Valley funciona quase como um personagem próprio dentro da narrativa. Ela é uma cidade destruída, abandonada e tomada por horrores biológicos que remetem diretamente ao imaginário clássico da Capcom. É muito legal ver um indie abraçando essa estética sem vergonha nenhuma de parecer “videogame antigo”.

Nem tudo funciona tão bem assim
O maior problema de Vultures é que ele ainda carrega muito daquela energia de projeto indie ambicioso demais para o próprio orçamento. Ainda existem bugs importantes, travamentos, problemas de interface e controles pouco intuitivos que o estúdio ainda está trabalhando para melhorar.
Em alguns momentos, certos comandos parecem exigir cliques desnecessários. Existe também uma sensação de familiaridade excessiva em alguns cenários e estruturas narrativas, como se o jogo às vezes tivesse medo de se afastar demais das próprias referências. E isso talvez seja o que mais impeça Vultures de alcançar algo realmente memorável. Ele é extremamente apaixonado pelos clássicos que homenageia, às vezes até demais.
Um dos indies de horror mais interessantes do ano
Mesmo com problemas técnicos e algumas limitações claras, “Vultures: Scavengers of Death” consegue fazer algo raro que é pegar duas estruturas que parecem incompatíveis e transformá-las em uma experiência genuinamente tensa.
O jogo entende que survival horror não depende apenas de sustos. Depende de pressão, de limitação e de vulnerabilidade. E quando ele acerta, acerta muito.
Para fãs de horror retrô, estratégia em turnos e daquela atmosfera suja dos jogos dos anos 90, Vultures é facilmente um dos indies mais interessantes surgidos nos últimos tempos. Talvez não seja revolucionário, nem consiga escapar completamente da sombra de suas inspirações. Mas às vezes tudo o que um bom jogo de terror precisa fazer é deixar você desconfortável, desesperado e constantemente com medo de abrir a próxima porta.
“Vultures: Scavengers of Death” está disponível na Steam.
Crédito da capa: Divulgação
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