Escritor e jornalista morreu nesta terça-feira (22) aos 95 anos

Hoje nos despedimos de um grande nome da literatura nacional: Zuenir Ventura. Nascido em Minas Gerais, Ventura passou a maior parte da vida no Rio de Janeiro, onde trabalhou como contínuo de banco, faxineiro de bar e balconista. Ele também ajudava o pai, que pintava casas. Foi por insistência de sua mãe que concluiu os estudos.

Durante a adolescência, conseguiu uma bolsa de estudos em troca de ser professor de crianças do ensino primário. Assim, passou a pensar em seguir a carreira docente. Apesar de ter vivido em uma casa onde livros eram raridade, desde muito jovem afeiçoou-se bastante à leitura e aos estudos. Aos vinte anos, cursou Letras Neolatinas na Universidade do Brasil, atual UFRJ. Sua intenção era seguir carreira na educação, mas conseguiu um emprego na Tribuna da Imprensa como arquivista noturno. Foi assim que tudo mudou.

O ingresso na literatura

Ao trabalhar na Tribuna, Zuenir se ofereceu para escrever um artigo sobre o escritor Albert Camus, de quem era fã. O texto foi muito elogiado e abriu portas para que ele pudesse escrever ainda mais. Zuenir então passou a fazer parte ativa da redação do jornal, passando por várias áreas de atuação como repórter, editor, chefe de reportagem, diretor de redação e colunista.

Nos anos 1960, trabalhou como diretor de redação da revista Fatos & Fotos, editor internacional do Correio da Manhã e chefe de reportagem de O Cruzeiro. Em 1967, participou ativamente da criação do jornal O Sol, que estava diretamente ligado ao momento político do país. Zuenir também produziu uma série de reportagens para a Editora Abril sobre os anos 1960. Os artigos foram transformados em livro.

Grande parte de sua carreira foi construída durante a ditadura militar, época em que a imprensa enfrentava grande repressão. De acordo com a ABL (Academia Brasileira de Letras), Zuenir foi preso por sua atuação contra o regime.

Suas obras

O extenso legado de Zuenir na literatura deu-se graças ao seu trabalho como repórter. O primeiro livro lançado foi 1968 – O Ano Que Não Terminou. A obra retrata o turbulento momento político do país e suas consequências. Seu título mais famoso inspirou, inclusive, a criação da minissérie Anos Rebeldes.

Capa do livro 1968 - o ano que não terminou
Crédito: Reprodução Companhia das Letras

Cidade Partida, título que retratava a violência no Rio de Janeiro, foi vencedor do Prêmio Jabuti de Reportagem. Uma de suas obras mais famosas é “Chico Mendes: Crime e Castigo“, que aprofunda a investigação sobre o assassinato do líder ambientalista.

A apuração do caso tornou-se um grande marco na carreira de Zuenir. Após passar um mês no Acre investigando o ocorrido, ele conheceu Genésio Ferreira da Silva, um garoto de treze anos que testemunhara o crime e estava sendo ameaçado. Zuenir, então, voltou para o Rio de Janeiro trazendo o menino consigo para morar com sua família, abrigo que o garoto manteve até completar dezoito anos.

Vida pessoal e dias atuais 

Ainda que fosse uma figura pública, Zuenir sempre foi discreto em relação à sua vida pessoal. Casado com Mary Ventura, teve dois filhos, Mauro e Elisa. Zuenir deixa também dois netos. O jornalista nunca se afastou do trabalho e manteve sua coluna em O Globo por mais de seis décadas, escrevendo sobre política, cultura, cotidiano e sociedade.

Ainda neste ano, sua vida virou tema do documentário Mestre Zu, dirigido por Zelito Viana. A produção acompanha a trajetória do jornalista desde a infância, passando por sua carreira e pelos momentos marcantes que vivenciou e noticiou. Em 2014, Zuenir foi eleito para a Academia Brasileira de Letras (ABL) e passou a ocupar a cadeira 32, anteriormente pertencente a Ariano Suassuna. A eleição para a ABL coroou uma vida inteira dedicada ao que ele mais amava: contar histórias.

Imagem de capa: Reprodução Leo Martins