Novo filme de Zach Cregger aposta em uma experiência próxima dos games, mas se perde entre a reinvenção e a identidade de “Resident Evil”
Vou começar essa crítica com uma afirmação que provavelmente vai incomodar alguns fãs: o novo “Resident Evil” é um filme fraco.
E não digo isso simplesmente porque ele não é o “Resident Evil” que eu esperava. Existe uma diferença importante entre não entregar aquilo que o público imaginava e não conseguir sustentar as próprias escolhas.
Dirigido por Zach Cregger, de “Noites Brutais” e “A Hora do Mal”, o filme acompanha Bryan, interpretado por Austin Abrams, um entregador que acaba no meio de um surto de criaturas em Raccoon City. A proposta é apresentar uma história nova dentro do universo da franquia, sem depender de personagens conhecidos como Leon Kennedy ou Chris Redfield.
E existe uma ideia interessante aqui.
Um terror que sabe criar tensão


Como filme de terror, “Resident Evil” tem bons momentos. Cregger sabe trabalhar câmera, atmosfera e tensão. A utilização de enquadramentos que remetem à experiência dos jogos, a escassez de munição e a progressão por diferentes ambientes ajudam a criar uma sensação de sobrevivência que aproxima o espectador da lógica do videogame.
Algumas sequências funcionam muito bem por causa disso. O filme sabe criar momentos de expectativa e consegue entregar sustos eficientes. O problema é que ele frequentemente destrói a própria tensão. Algumas criaturas são, inclusive, decepcionantes, principalmente quando comparadas às expectativas criadas pelo próprio universo de “Resident Evil”.
O problema não é simplesmente criar monstros novos. A franquia sempre fez isso. A questão é que algumas dessas criaturas parecem pouco inspiradas ou desconectadas da lógica visual e biológica que esperamos dos jogos.
O longa aposta bastante no humor, principalmente através de Bryan. Em alguns momentos, isso funciona e ajuda a construir um protagonista diferente do típico herói de filmes de zumbi. Em outros, porém, a piada chega logo quando o filme precisava deixar o horror respirar.
O humor e a autoconsciência podem funcionar como entretenimento, mas acabam enfraquecendo o terror em determinados momentos. E é aí que entra uma das maiores contradições do filme.
Ele sabe assustar, mas nem sempre sabe sustentar o medo.
O problema está no roteiro


O roteiro é onde “Resident Evil” começa a perder força. Os personagens tomam decisões questionáveis, algumas situações parecem existir apenas para levar Bryan de um cenário ao outro e certas sequências são tão absurdas que tiram completamente o espectador da história.
Há momentos em que a reação é menos “meu Deus, que medo” e mais: “Meu filho, era só não fazer isso.”
Isso também aparece na construção de algumas criaturas.
O filme tem monstros visualmente interessantes e bastante grotescos, mas a lógica por trás dessas mutações nem sempre é clara. O T-Vírus, dentro da mitologia de “Resident Evil”, sempre esteve associado a mutações e experimentos biológicos específicos.
Aqui, algumas transformações parecem seguir muito mais a lógica do body horror de Cregger do que a lógica estabelecida pela franquia. Braços surgindo, corpos se fundindo, massas de carne e criaturas que parecem ter saído de outro universo de horror.
Visualmente, algumas são interessantes. Dentro de “Resident Evil”, porém, elas nem sempre convencem.
Talvez funcionasse melhor como “Resident Evil: Outbreak”
O filme funcionaria melhor se assumisse desde o início que é uma história dentro do universo de “Resident Evil”, e não uma tentativa de representar toda a identidade da franquia.
Algo na linha de Resident Evil: Outbreak faria mais sentido. Uma história paralela acontecendo durante o caos de Raccoon City, acompanhando personagens comuns tentando sobreviver enquanto os acontecimentos dos jogos acontecem ao redor deles.
Dessa forma, a liberdade criativa de Zach Cregger poderia ser preservada sem criar tanta expectativa sobre aquilo que o público espera de um novo “Resident Evil”.
Não precisaria ser Leon, Chris ou Jill. Não precisaria recontar os jogos. Mas precisaria deixar claro que aquela é apenas uma história de “Resident Evil”. E essa simples mudança de perspectiva, certamente, faria toda a diferença.
Cadê Raccoon City?


E existe outra ausência que pesa bastante para mim: a sensação de Raccoon City. Sim, o filme está ambientado nesse universo. Sim, Umbrella está presente. Mas falta aquela sensação de que estamos diante de uma cidade tomada pelo caos, com instituições tentando reagir ao desastre.
Cadê a RPD? Cadê a polícia de Raccoon City?
A escolha de acompanhar um personagem comum é interessante e até combina com a proposta de Cregger de colocar o espectador na posição de alguém que simplesmente caiu dentro de um jogo. Mas isso também faz o filme se afastar de elementos que ajudaram a construir a identidade de “Resident Evil”.
E a ausência de personagens conhecidos, como Leon e Chris, não é necessariamente um problema. O problema é quando você retira esses elementos e não coloca algo igualmente forte no lugar.
Um “Resident Evil” sem cara de “Resident Evil”


Esse é maior problema da produção. Cregger claramente quis fazer uma história própria.
E ele mesmo já explicou que sua intenção era criar uma experiência que lembrasse jogar “Resident Evil”, em vez de simplesmente adaptar uma das histórias dos games. A ideia é válida.
Mas, em determinados momentos, parece que estamos assistindo mais a um filme de Zach Cregger ambientado no universo de “Resident Evil” do que a uma história que realmente depende daquele universo.
Isso explica uma parte da recepção tão dividida entre fãs. Para alguns, a liberdade criativa é justamente o que torna o filme interessante. Para outros, essa liberdade afasta a produção demais daquilo que torna “Resident Evil” reconhecível.
Eu estou mais próximo do segundo grupo. Dá para ter liberdade criativa e fazer algo que pareça muito mais com a franquia do que esse filme.
E o tal “efeito Zach Cregger”?
Existe ainda uma questão difícil de ignorar. Depois de “Noites Brutais” e “A Hora do Mal”, Cregger chegou a “Resident Evil” carregando uma expectativa enorme. E pra mim existe sim um “efeito Zach Cregger”.
Não no sentido de que a crítica esteja errada ao elogiar o filme, mas porque existe uma expectativa muito grande de que qualquer novo trabalho dele seja algo extraordinário. E algumas críticas positivas parecem valorizar a capacidade do diretor de transformar “Resident Evil” em uma experiência de horror diferente.
Eu entendo. O problema é que, quando comparo esse filme com os dois trabalhos anteriores de Cregger, existe uma queda evidente. Ele sabe fazer terror. Só que este não me parece estar no mesmo nível.
Particularmente, achei esse filme mais simples narrativamente do que os trabalhos anteriores do diretor.
E as adaptações anteriores?
Aqui vem uma opinião que provavelmente vai gerar outra discussão: eu ainda prefiro a saga da Milla Jovovich.
E não porque aqueles filmes sejam perfeitos. Muito longe disso. Mas existe algo que eu valorizo naquela série: o diretor Paul W. S. Anderson assumiu desde o começo que queria fazer uma versão própria de “Resident Evil” e, ao longo de seis filmes, construiu uma identidade cinematográfica.
O novo longa também quer liberdade.
Só que ainda parece dividido entre ser uma história completamente nova e carregar o peso de uma das franquias de games mais conhecidas do mundo.
Vale a pena assistir “Resident Evil”?


“Resident Evil” não é um desastre. Longe disso. Ele tem boas sequências de terror, uma direção competente, criaturas interessantes e uma proposta visual que tenta aproximar o cinema da experiência de jogar.
Mas também tem um roteiro irregular, humor demais em momentos que pediam tensão, decisões de personagens difíceis de comprar e uma mitologia que nem sempre conversa bem com aquilo que conhecemos dos jogos.
Como terror, ele tem bons momentos. Como filme, é irregular. E como “Resident Evil”, para mim, não funciona.
Esse é o ponto mais frustrante: eu não precisava que Cregger fizesse o “Resident Evil” que eu imaginava. Eu só precisava que ele me convencesse de que aquela história precisava ser um “Resident Evil”. E, para mim, não convenceu.
“Resident Evil” está em cartaz nos cinemas.
Crédito da capa: Divulgação Sony Pictures
“Resident Evil” (Resident Evil, EUA, 2026, 1 h 37 min) – Terror/Ficção científica
Direção: Zach Cregger
Roteiro: Zach Cregger, Shay Hatten
Elenco Principal: Austin Abrams, Zach Cherry, Kali Reis
Produtor: Zach Cregger, Victor Hadida, Robert Kulzer, Roy Lee, Asad Qizilbash, Carter Swan, Miri Yoon
Produção: PlayStation Productions, Constantin Film, Vertigo Entertainment
Fotografia: Dariusz Wolski
Música: Hays Holladay, Ryan Holladay
Classificação: 18 anos
Distribuição: Sony Pictures
















