Em entrevista, autora revela qual foi a inspiração por trás do livro que transforma monumentos cariocas em personagens

A escritora Angela Chaves, conhecida como criadora da série “Pedaço de Mim”, da Netflix, lançou o seu novo livro “Histórias de ferro e pedra”. A obra marca a estreia da autora nos contos, transformando monumentos do Rio de Janeiro em protagonistas inspirados pelo gênero do realismo mágico.

Nascida no Rio de Janeiro e mestre em Literatura Brasileira, Angela Chaves construiu uma carreira consolidada no audiovisual, atuando como roteirista da TV Globo antes de assumir sua própria produtora, a Palavra Chave. Autora de cinco livros infantojuvenis e colaboradora de obras de destaque como “Maysa – Quando Fala o Coração“, ela divide atualmente sua rotina entre o Rio e o sertão nordestino. Seu sucesso recente inclui a criação e o roteiro da série “Pedaço de Mim”, vencedora do prêmio APCA 2025, além da adaptação do romance “Véspera”, de Carla Madeira, para a Max. 

Em sua primeira coletânea de contos publicada pela Editora Mondru, Angela transforma estátuas, chafarizes, praças e monumentos cariocas em personagens reais. Ao todo são sete histórias em que essas figuras, literalmente feitas de ferro e pedra, observam, sentem, desejam e guardam memórias, convidando o leitor a redescobrir o Rio por meio da própria imaginação.

Em entrevista ao portal GeekPop News, a autora revela detalhes sobre o processo criativo da obra.

Veja a entrevista com Angela Chaves

A história da estátua Inverno aconteceu de verdade e acabou dando origem à sua ficção. Em que momento você percebeu que aquela história real poderia ser o ponto de partida para falar não apenas da estátua, mas da própria relação das pessoas com a cidade?

A estátua Inverno me impressiona pela sua expressividade. Como algo feito de metal pode transmitir tanta emoção? E ela consegue mostrar no detalhe da mão segurando o manto ou dos dedos procurando o fogo. É tão bonita. E o fato de ter estado ausente da praça, ter aparecido (a original ou uma outra igual) em outro lugar da cidade… Ter sido confundida com uma santa e depois retornado ao lugar de origem acendeu minha imaginação.

Há tantas histórias curiosas na nossa cidade. Inverno foi o ponto de partida desse livro.

Por que escolher justamente estátuas, chafarizes, pedras e outros elementos da cidade como protagonistas?

Porque estão ali.

Pertencem à nossa cidade e poucos reparam neles. São muitos, expressivos, poéticos — e não me refiro a bustos ou homenagens, mas a obras com outros significados. Pouca gente nota a riqueza dos detalhes ou sabe das histórias que guardam. Olhar a cidade e aceitar um convite para reinventar o cotidiano é minha proposta.

O que te fez escolher o realismo mágico como forma de contar essas histórias?

Eu gosto muito de literatura fantástica. Não me refiro a histórias de monstros ou magia propriamente, embora também — mas a uma narrativa que permita uma outra dimensão da própria realidade. Fato e ficção se misturam o tempo todo nessa literatura para refletir sobre sentimentos e emoções humanas.

Há lugares da cidade que os cariocas passam todos os dias, mas já não enxergam. O que a senhora gostaria que o leitor percebesse depois de ler o livro?

Gostaria que percebessem a cidade de outro jeito, o espaço urbano rico de imagens. Não vejam só o caos cotidiano, com o qual estamos habituados, mas a beleza e a poesia. A poesia me interessa.

Existe algum personagem ou conto pelo qual a senhora tenha um carinho especial? Por quê?

Além de Inverno, a lagartixa — talvez me sinta como ela, que teve a curiosidade acesa e partiu para conhecer o mundo.

Imagem de capa: Reprodução