Em entrevista ao GeekPop News, autora comenta sobre como cartas escritas há mais de um século pela sua trisavó inspiraram seu livro de estreia
Cândice Broglio Gasperin, autora do livro “O Abraço de Regina”, falou exclusivamente ao GeekPop News sobre como a trajetória de seus antepassados italianos influenciou a construção da obra. Com formação em Jornalismo, a escritora atualmente se dedica à carreira na literatura. O romance de estreia “O Abraço de Regina” trata de temas como herança, frustrações amorosas, profissionais e fertilidade, sempre em busca da complexidade que acompanha as questões.
Confira a entrevista com Cândice Broglio Gasperin:
Você poderia se apresentar para os nossos leitores nas suas próprias palavras? Queremos conhecê-la melhor.
Desde criança, eu brincava que seria escritora e decidi seguir na carreira de jornalismo aos cinco anos. Eu trabalhei por muitos anos com comunicação corporativa e voltei a escrever quando comecei a praticar o turismo de raízes, em 2022. Passei a visitar as cidades de onde meus antepassados italianos saíram para imigrar para o Brasil. Comecei pela história da família do meu pai, que tem muito mais detalhes, e posteriormente pelo lado da minha mãe.
Atualmente, eu moro na Espanha, o que, de certa forma, me aproxima ainda mais das raízes que passei anos buscando. Além disso, uma curiosidade que poucas pessoas sabem é que eu também sou groundhopper, ou seja, eu visito estádios e museus de futebol pelo mundo. Meu pai era jogador de futebol e herdei dele a paixão pelo esporte.
Eu também sou descendente de italiana, minha avó veio para o Brasil aos 14 anos em busca de uma vida melhor. Então, eu também me interesso pelo impacto da minha descendência na minha vida profissional. Existe alguma memória da sua infância, cercada por tradições italianas, que você sente que foi decisiva nesse interesse pelas suas origens?
Eu sou descendente de italianos tanto pelo lado materno quanto paterno, então cresci dentro da cultura dos imigrantes no Rio Grande do Sul. Mas, tenho uma lembrança muito forte de quando eu tinha quatro anos. A minha avó materna me ensinou a fazer agnolini, uma receita típica da família, que passava de geração em geração. Estar ali com ela, cantarolando as músicas italianas e aprendendo algo que ela aprendeu com seus antepassados é uma das memórias mais marcantes que eu tenho. Quando eu cozinho a famosa sopa de agnolini das mulheres Broglio, não estou apenas preparando um prato, mas sinto que é um modo de resgatar as minhas raízes.
Em que ponto essa descoberta deixou de ser uma investigação pessoal e passou a se tornar um livro?
No momento em que eu fui passar um período na Itália para buscar a origem da minha família materna, em 2023. Foi tão transformador, com tantas coincidências e que eu decidi contar essa história. Cada vez que eu ia em busca de inspiração ou respostas, eu encontrava alguém pelo caminho que me ajudava a encontrar a próxima peça do quebra-cabeça que era descobrir a história da Regina e da sua família. Spoiler: o capítulo do encontro com a parente do cemitério de Goito realmente aconteceu!
Escolher o livro como formato desta jornada veio naturalmente e foi o modo que eu encontrei de fazer jus a tudo que vivi naqueles dias.
Além de ser escritora, você é formada em jornalismo. Em algum momento você se sentiu dividida entre a “investigadora”, comprometida com os fatos, e a “escritora”, mais livre para criar?
Sim, ao escolher se o livro seria um romance ou não-ficção. A escolha pelo primeiro formato foi justamente para ter mais liberdade criativa e desenvolver meu lado de escritora. Outro fator que me direcionou para escrever um romance foi a dificuldade de encontrar alguns documentos e evidências da minha família. Vale lembrar que o livro é baseado em fatos reais, e eu conto vários detalhes adicionais no Diário da Paola, disponível no YouTube.
O livro propõe um espelhamento entre Regina e Paola. Quando você percebeu que essas duas trajetórias realmente dialogavam? E o que mais te surpreendeu quando você comparou as duas jornadas?
Desde o momento em que eu reencontrei as cartas percebi que o intervalo de 120 anos que separava as duas histórias era uma questão de tempo e espaço, não de sentimento. A Paola e a Regina compartilham a mesma sensação de ter entes queridos vivendo em outro continente, longe do convívio diário, e esse foi o elo de ligação para iniciar esta jornada.
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As duas têm estilos de vida e personalidades diferentes, mas buscavam encarar a vida com bom-humor e esperança. Ao mesmo tempo, Paola resgata e respeita a história e as escolhas de Regina, mas sabe que ela precisa seguir adiante e continuar a sua própria história.
A protagonista enfrenta frustrações profissionais, amorosas e questões relacionadas à fertilidade. Por que foi importante para você abordar essas camadas?
São situações inspiradas em vivências próprias ou de pessoas muito próximas, que retratam os momentos em que nos sentimos sozinhos. Das três, a mais difícil de desenvolver foi a questão da fertilidade. Eu costumo dizer que o relógio biológico de uma mulher não marca horas, ele atropela expectativas e sonhos. Quando a gente menos espera, precisa tomar a corajosa decisão de ser ou não ser mãe. Eu noto que ainda é muito difícil debater problemas como endometriose, miomas ou dificuldade para engravidar.
Compartilhar essas histórias foi uma tentativa de oferecer acolhimento para o leitor de alguma forma, de mostrar que há mais pessoas no mundo que vivem este tipo de situação e que está tudo bem pedir ajuda.
Houve alguma descoberta durante a investigação que te impactou profundamente ou mudou o rumo da história?
Aos 70 anos de idade, Regina decidiu atravessar o Atlântico acompanhada por dois de seus filhos e depois de algum tempo voltou para a Europa. Em plena terceira idade, em uma época em que mulheres como ela tinham pouca voz e ainda menos espaço, Regina teve mais coragem do que muitas pessoas têm hoje. Ela escolheu viver uma nova realidade, teve a ousadia de recomeçar e depois decidiu voltar para a Itália. Isso foi muito inspirador para mim, pois me ensinou resiliência e me deu a certeza de que eu precisava publicar esta história.
Para quem está começando a escrever agora, que conselho você gostaria de compartilhar?
Tenha disciplina para escrever todos os dias, nem que seja uma linha ou uma página, um diário, uma legenda para um post de redes sociais, e siga seu coração. Há uma frase que escrevi no livro sobre isso:
“Quando você consegue acreditar no seu coração, mesmo quando muitos vão criticar por não entender a sua escolha, e sentir alívio, é aí que você vive um momento mágico, onde tudo pode acontecer. É o que eu falaria para quem quer ser escritor”.
Há algo que você gostaria de acrescentar ou compartilhar?
Por conta da divulgação do livro, eu consegui encontrar recentemente uma descendente da Regina no Brasil, por meio das redes sociais. Ainda não nos conhecemos pessoalmente, pois eu moro na Espanha, mas mantemos contato e nossa primeira conversa foi muito emocionante. De alguma forma, o livro fez o que eu esperava: reconectou pessoas, atravessou fronteiras e mostrou que algumas histórias precisam ser contadas para que possam continuar.
Imagem de capa: Montagem por Eduarda Goulart
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