Levantamento em Juiz de Fora e Belo Horizonte mostra as barreiras que ainda dificultam o acesso ao cinema

O Brasil nunca teve tantas salas de cinema. Em 2025, o país encerrou o ano com 3.544 telas, distribuídas por 886 complexos, segundo a Agência Nacional do Cinema (Ancine). No mesmo período, 112,8 milhões de espectadores passaram pelas salas brasileiras. O recorde, porém, não significa que mais pessoas consigam frequentar os cinemas. Antes que um filme comece, há um percurso que não aparece na bilheteria. Ingresso, transporte, localização e programação também entram na decisão.

Esta reportagem realizou um levantamento exploratório por formulário on-line, com perguntas sobre frequência, renda, ingresso, transporte, deslocamento e distribuição das salas. Foram consideradas 48 respostas, 24 de Juiz de Fora e 24 de Belo Horizonte. Os resultados retratam apenas o grupo consultado, sem representar estatisticamente as duas cidades.

Em Juiz de Fora, mais da metade avalia mal a distribuição dos cinemas

Sala Estação das artes cinema Alameda / juíz de fora (Créditos: Divulgação)
Sala Estação das artes cinema Alameda / juíz de fora (Créditos: Divulgação)

Em Juiz de Fora, 58,3% dos participantes avaliaram a distribuição dos cinemas como ruim ou muito ruim. Nenhum classificou como muito boa.

Nas respostas abertas, aparecem sugestões como “ter mais cinemas espalhados pela cidade”, “cinemas em lugares mais acessíveis” e “no centro da cidade”.

A localização também se relaciona ao deslocamento. Treze dos 24 participantes, ou 54,2%, utilizam aplicativo de transporte para chegar ao cinema. Onze levam de 16 a 30 minutos no trajeto e dez gastam entre 31 e 45 minutos. Um participante relatou mais de uma hora.

Para Edileis Ferreira Novais, doutoranda em Artes, Cultura e Linguagens pela UFJF, a concentração das salas pode aumentar o tempo de viagem e os gastos com transporte. A pesquisadora relaciona o cenário à concentração do circuito exibidor em áreas com maior densidade populacional e renda, principalmente em shoppings e espaços comerciais.

O preço da sessão não termina no ingresso

Em Juiz de Fora, a faixa de preço mais citada foi de R$ 26 a R$ 35, indicada por dez dos 24 participantes. A renda ajuda a dimensionar o peso desse gasto. Quatorze participantes recebem entre R$ 1.501 e R$ 3 mil e cinco, até R$ 1.500.

Nas respostas abertas, preço e valor do ingresso aparecem repetidamente. Um participante resumiu o custo acumulado da experiência:

“Os cinemas já ficam em lugares de difícil acesso, então é obrigatório ter gastos com transporte. Junta isso com o preço do ingresso e um lanche e sem perceber você já está pagando mais de 100 reais só pra ver um filme. A experiência de ir ao cinema é divertida, mas com esses gastos acaba sendo algo que só vale a pena fazer se o filme for uma obra prima.”

Edileis também chama atenção para esse custo acumulado, que pode incluir deslocamento, estacionamento e alimentação.

Paulo Monttero, sócio e coordenador do Cinema Alameda, em Juiz de Fora, também reconhece a influência do preço:

“O valor, ele com certeza influencia. Existe uma ideia de que cinema é caro.”

Entre os valores pesquisados, o Alameda cobra R$ 16 às segundas e até R$ 36 na inteira convencional nos demais dias. No UCI Independência, a “Segunda Mania” custa R$ 25 a inteira. No Cinemais Jardim Norte, a inteira convencional chega a R$ 42.

Para sair de casa, o filme também precisa interessar

Reprodução/Minas é Cinema – UFJF
Reprodução/Minas é Cinema – UFJF

Preço e distância, porém, não explicam sozinhos a decisão. Nas respostas abertas de Juiz de Fora, o interesse pelo “O Filme” e “filme em cartaz” também aparece nas respostas abertas. Participantes citaram “ter um filme que me interessa” e avaliar “se o filme vale a pena”.

Quando o interesse é comparado aos custos, assistir em casa pode se tornar uma alternativa. A disputa também aparece na avaliação de Paulo Monttero:

“Por que eu vou ao cinema se eu tenho a opção de assistir um filme no conforto de casa?”

Monttero afirma que localização, acesso e experiência de exibição influenciam essa escolha. O Alameda também procura oferecer produções fora dos grandes circuitos.

Entre os participantes de Juiz de Fora, 12 afirmaram ir ao cinema raramente. Oito frequentam algumas vezes por ano e quatro, de uma a três vezes por mês.

O trajeto pode passar de uma hora

(Créditos: Divulgação)
Sala de cinema IMAX Cineart Shopping Boulevard (Créditos: Divulgação)

Em Belo Horizonte, 29,2% avaliaram negativamente a distribuição dos cinemas, metade da proporção registrada entre os participantes de Juiz de Fora. Mesmo assim, o deslocamento pode ser longo. Dez dos 24 participantes, ou 41,7%, levam mais de 45 minutos para chegar ao cinema.

O transporte é mais dividido. Oito utilizam carro, seis ônibus, seis aplicativo, três motocicleta e um participante marcou outra opção. Distância e mobilidade também aparecem nas respostas abertas, com menções a “descentralização cultural”, “mobilidade” e “cinemas mais próximos”.

O preço permanece entre as questões. Nove participantes costumam pagar de R$ 16 a R$ 25 pelo ingresso. Metade declarou renda de até R$ 1.500.

Assim como em Juiz de Fora, a programação influencia a decisão. “O filme” e “os filmes que estão em cartaz” estão entre as respostas.

Um modelo diferente de exibição em BH

O Cinema do Centro Cultural Unimed-BH Minas recebeu 73.363 pessoas em 3.047 sessões em 2025, segundo Maria Bueno, assessora do espaço. A programação reúne circuito comercial, mostras e festivais, além de sessões gratuitas e promocionais.

Às segundas, a inteira custa R$ 10 e a meia, R$ 5. De terça a quinta, os valores são R$ 15 e R$ 7,50. De sexta a domingo, os ingressos custam R$ 25 e R$ 12,50. Associados do Minas Tênis Clube e clientes Unimed-BH recebem 15% de desconto.

Segundo Maria Bueno, o espaço fica em região relativamente central e possui acesso por diferentes linhas de ônibus.

Juiz de Fora e Belo Horizonte: o acesso muda de forma

As duas amostras apresentam obstáculos diferentes. Em Juiz de Fora, chama atenção a avaliação negativa sobre a distribuição das salas. Em BH, o deslocamento é maior.

O transporte também muda. 54,2% dos participantes de JF utilizam aplicativos, enquanto em Belo Horizonte há maior divisão entre carro, ônibus e aplicativos.

A faixa de ingresso mais frequente é de R$ 26 a R$ 35 em JF e de R$ 16 a R$ 25 em BH. A comparação deve considerar os diferentes perfis de renda das amostras. Os resultados também não representam todos os frequentadores das duas cidades.

Quando o preço cai, milhões ocupam as salas

A dimensão econômica apareceu na nona Semana do Cinema, realizada entre 10 e 16 de setembro de 2026.

Segundo a ABRAPLEX, sessões tradicionais participantes custaram R$ 10 antes das 17h e R$ 12 nos demais horários, com algumas exceções. A associação registrou mais de 5,6 milhões de ingressos vendidos em sete dias, recorde da iniciativa e 30% acima da melhor marca anterior.

O resultado não prova que o preço foi o único responsável. Programação, divulgação e lançamentos também fizeram parte do cenário. Ainda assim, a procura durante uma campanha de ingressos promocionais reforça a importância do preço na discussão sobre acesso.

Mais salas, mas não necessariamente mais acesso

A expansão também é desigual no país. Segundo Edileis, o Sudeste concentra 1.845 telas, cerca de 52% do total nacional. O desafio também envolve o que chega às telas. Segundo a Ancine, 367 longas brasileiros foram exibidos em 2025. Essas produções reuniram 11,1 milhões de espectadores e representaram 9,9% do público total dos cinemas.

Para 2026, a Cota de Tela determina uma quantidade mínima de sessões destinadas a longas brasileiros, conforme o porte dos grupos exibidores.

A regulamentação também incentiva horários de maior procura. Sessões elegíveis programadas a partir das 17h recebem bonificação no cumprimento da cota.

No Cinema Alameda, Paulo Monttero diz que a presença de produções brasileiras não é tratada apenas como obrigação:

“Eu nunca pensei que eu preciso colocar um filme pra cumprir uma cota. Eu preciso colocar um filme nacional porque é importante ter um filme nacional no cinema.”

Monttero também defende que essas produções sejam exibidas em horários nos quais o público consiga assistir.

Para além das salas comerciais

O Cine Santa Tereza foi reinaugurado em 2016.
O Cine Santa Tereza foi inaugurado novamente graças ao apoio da população. | Crédito: Ricardo Laf/PBH

As cidades também oferecem alternativas culturais. Em Juiz de Fora estão espaços como Cine-Theatro Central, Museu Mariano Procópio, CCBM, Parque da Lajinha e Jardim Botânico.

Em Belo Horizonte, há opções como Palácio das Artes, Circuito Cultural Praça da Liberdade, CCBB e Museu de Artes e Ofícios.

No audiovisual, o Cine Santa Tereza, cineclubes, cinemas públicos e sessões gratuitas representam alternativas ao circuito comercial.

Edileis aponta que essas iniciativas podem reduzir barreiras econômicas e territoriais e ampliar o espaço para produções nacionais e independentes.

O que existe entre a tela e o espectador

O recorde de 3.544 salas mostra a expansão do parque exibidor brasileiro. Os dados da reportagem, porém, mostram que ter uma tela disponível é apenas parte do acesso.

Em Juiz de Fora e Belo Horizonte, preço, localização, transporte, deslocamento e programação aparecem em diferentes momentos da decisão de frequentar uma sala. O desafio, portanto, não termina em aumentar o número de telas. Entre o cinema e o espectador, ainda existe o custo de conseguir chegar até ele.

Crédito da capa: Divulgação Centro Cultural Unimed Bh

Reportagem por Laysa Hensel e Yasmin Rejane

Estagiárias sob supervisão de Mário Guedes.