O best-seller de Ali Hazelwood ganhou uma adaptação na Prime Video estrelada por Lili Reinhart e Tom Bateman
Aviso de spoilers: a análise pode conter spoilers de momentos chave da obra
A Hipótese do Amor de Claire Scanlon é uma adaptação cinematográfica do livro homônimo de Ali Hazelwood que conta a história de Olive Smith. A personagem é uma jovem cientista que está cursando o doutorado na Universidade de Stanford e acaba se envolvendo em um conflito amoroso. Produzido pela Prime Video e protagonizado por Lili Reinhart e Tom Bateman, o longa estreou na plataforma em 23 de setembro.
Após conquistar milhares de fãs pelo mundo, o filme chega para dar vida aos personagens do best-seller lançado em 2021. A história se trata de uma comédia romântica que se passa dentro do cenário acadêmico, como as demais criações da autora. Neste caso, Olive, personagem de Lili Reinhart, acaba se envolvendo com o professor mais temido do seu departamento em um namoro falso. Adam Carlsen é um pós-doutorando conhecido no instituto de biologia por ser rigoroso e mal-humorado com seus orientandos.
O suposto romance acontece acidentalmente quando a protagonista decide fingir que está saindo com alguém para despistar sua melhor amiga, Ahn. Isso porque ela acredita ser a melhor saída para fazer a amiga acreditar que seu caminho está livre para ficar com Jeremy, o ex de Olive. A personagem nunca levou esse relacionamento tão a sério e acredita que a Ahn tem o direito de ser feliz. Ainda que isso signifique que ela tenha que mentir para sua companheira inseparável.
Portanto, quando se vê encurralada após dizer para Ahn que tinha um encontro sem ter, Olive acaba beijando a primeira pessoa que encontra no laboratório ao ser surpreendida pela amiga. O problema é que essa pessoa é justamente o Dr. Adam Carlsen, ou como os alunos gostam de chamar, o “Doutor Hostil”.
Um elenco quase perfeito
Quando Lili Reinhart (Riverdale) e Tom Bateman foram anunciados como Olive e Adam, a escalação foi comemorada. E eu considero um acerto, a dupla se encaixou perfeitamente. Tom é grande e “assustador” como Adam e consegue parecer incrivelmente mal-humorado. Assim como outros espectadores, a atuação de Bateman me lembrou muito de Tom Ellis na série ‘Lúcifer’ – o figurino, as encaradas, os olhares curiosos, o figurino sempre preto eram muito característicos do rei do inferno.
Outra escalação que considero ótima é a de Rachel Marsh no papel de Ahn. A personagem ganhou outra cara, já que no livro ela me parece uma amiga chata e inconveniente. Na adaptação essa relação é mais profunda, Ahn é como um alicerce para Olive. A família que ela escolheu. Apesar disso, Malcolm (Jaboukie Young-White) foi colocado de escanteio. Na narrativa original, o jovem é um dos melhores amigos da protagonista e o único que sabe que seu relacionamento com o Dr. Hostil é falso. Na adaptação, o rapaz vira apenas um colega de apartamento, não tão próximo quanto Ahn.


Uma escolha que me chamou atenção foi a de Nicholas Duvernay para o papel de Jeremy. Ali Hazelwood descreve o personagem algumas vezes como ruivo com sardas, o que não é o caso. A escalação dele não muda em nada o destino da história, mas sua narrativa foi completamente alterada. Como dito antes, Olive não ligava para seu relacionamento com ele. Contudo, no longa a protagonista nunca namorou com ele, mas tinha um paixonite pelo personagem.
O trio ainda passa por uma infantilização, parecem mais graduandos do que doutorandos muitas vezes. Nesse ponto, o figurino não colaborou.
Diferenças gritantes
Como alguém que leu o livro, é impossível não perceber as diferenças da adaptação. E não para ser aquela consumidora chata que reclama de mero detalhe. Eu entendo que o formato é muito difícil de adaptar, talvez o ideal seria uma minissérie. Entretanto, apagar completamente personagens que eram cruciais para o desenvolvimento deveria ser considerado crime. É o caso do personagem, Holden, o melhor amigo de Adam Carlsen.
O protagonista no livro é bem mais fechado, o que torna Holden um personagem super importante para contextualizar seus pensamentos. Sendo assim, como melhor amigo, ele revela os sentimentos de Carlsen, mostra mais da personalidade e da origem dele. Na adaptação existe um vazio, a origem do personagem nunca é mencionada, sua família também não, seu plano de fundo fica raso.
Uma outra personagem que sofre com certo apagamento é a Dra. Aslan, a mentora de Olive Smith. A pesquisadora aparece casualmente em algumas cenas, nunca em contexto de orientar, somente como professora. E suas falas foram retiradas, como “Tenha a autoestima de um homem hétero branco” – dita por Adam no filme. Dessa forma, a personagem perdeu a sua razão de existir.
A falta de um panorama maior sobre os protagonistas também ficou evidente. Fazendo com que eventos como o dia em que se conheceram no banheiro perdessem a importância. Vários diálogos foram cortados, como a declaração em holandês e os encontros às quartas-feiras. No livro, o homem esperou três anos para finalmente ter uma chance com a única mulher que o atraiu, mas esse sentimento não está tão claro ali na tela.
A comédia romântica tirou o peso da história


Mais uma vez, entendo que muita coisa podia não caber em um filme de menos de duas horas, mas algumas dessas coisas eram fundamentais para a narrativa. Ali Hazelwood é uma autora conhecida por escrever sobre o universo STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática). Suas histórias são sobre mulheres fortes, que batalham por seus sonhos, enfrentam o machismo, a misoginia e o assédio dentro do espaço acadêmico. Com Olive não é diferente, porém a direção decidiu tirar o peso dos eventos que a protagonista sofre.
A adaptação decidiu explorar o lado engraçado do namoro falso, enquanto tratou o assédio e a falta de crédito como situações que se resolveram sem demonstrar o impacto que tiveram sobre a protagonista. O vilão da história, Tom Benton (Arty Froushan), também perdeu força. Em vez de representar um problema de fato, ele funciona mais como um contratempo que cria distância entre o casal. Amigo de Adam, Tom se aproveita da situação para se aproximar de Olive, mas o filme não desenvolve esse conflito e, mais uma vez, diminui o peso dos acontecimentos.
Nesta versão da história, Adam assume o controle de várias situações e estabelece os parâmetros da relação, enquanto Olive apenas acompanha suas decisões. Para mim, Olive deveria demonstrar mais autonomia e assumir o controle da própria história, como acontece no livro.
LEIA TAMBÉM: Crítica | “Resident Evil” é um bom terror, mas não é “Resident Evil”
Vale a pena assistir ‘A Hipótese do Amor’?
Sim, vale a pena. Apesar de tudo dito aqui, é filme gostoso de assistir. Quem assistir sem ler o livro pode ficar sem vários contextos ou pode considerar sua nova romcom favorita. Eu poderia continuar aqui listando infinitos pontos de divergência, mas isso não seria racional. A obra audiovisual tem uma proposta diferente da literária, é preciso encarar isso com maturidade. A não ser que a adaptação deixe de fazer sentido, como apontado aqui em alguns casos.
Apesar de tudo, Olive e Adam ainda ficam juntos. Passam por vários momentos fofos e constrangedores que constroem essa relação. Em determinado momento, finalmente a química acontece e Tom Bateman traz o Adam com o olhar apaixonado para a cena.
A direção de Claire Scanlon não ignora os fãs de ‘A Hipótese do Amor’, ela até os cumprimenta quando escolhe uma trilha específica para o personagem de Tom Bateman que relembra o início dessa história – quando ainda era uma fanfic de Star Wars. Esse é um “filme conforto” para você assistir em casa com uma pipoquinha em casa, relaxando, sem compromisso e está tudo bem. Viva a comédia romântica!
Imagem de capa: Reprodução / Prime Video
A Hipótese do Amor
EUA, comédia romântica, 112min
Direção: Claire Scanlon
Criado por: Ali Hazelwood
Elenco: Lili Reinhart, Tom Bateman, Rachel Marsh, Nicholas Duvernay, Jaboukie Young-White, Arty Froushan
Roteiro: Sarah Rothschild
Produção: Lili Reinhart, Elizabeth Cantillon, Catherine Hagedorn, Ali Hazelwood, J. Michael Williams
Distribuição: Prime Video


Esta matéria chegou até você de graça. Produzi-la, não.
O GeekPop News é um projeto de jornalismo cultural independente. Seu apoio ajuda a manter nosso trabalho e a construir os próximos anos do portal.
Apoie a partir de R$ 10 por mês. Clique aqui e faça sua doação!














