Wagner Moura já não é apenas um dos rostos mais reconhecidos do cinema brasileiro. Nos últimos anos, o ator construiu uma trajetória internacional cada vez mais consistente, passando por produções como Elysium e Narcos, que o colocou definitivamente no radar de Hollywood, além de trabalhos como Sergio e Guerra Civil. Mais recentemente, O Agente Secreto ampliou ainda mais esse reconhecimento, com Moura conquistando o prêmio de Melhor Ator no Festival de Cannes e uma indicação ao Oscar. É justamente nesse momento de projeção internacional que ele chega a A Última Casa, thriller de ficção científica da Netflix dirigido por Louis Leterrier, dividindo o protagonismo com Greta Lee. A presença dos dois naturalmente cria uma expectativa maior em torno do filme e, felizmente, quando o roteiro permite, os atores conseguem entregar mais do que a própria história oferece.

Uma premissa que sabe despertar curiosidade

Thriller "A Última Casa" | Crédito: Divulgação/Netflix
Thriller “A Última Casa” | Crédito: Divulgação/Netflix

“A Última Casa” parte de uma ideia bastante eficiente: uma família é misteriosamente confinada dentro da própria residência e precisa descobrir como sobreviver enquanto tenta entender o que está acontecendo do lado de fora. Portas e janelas deixam de representar uma passagem para o mundo exterior e passam a funcionar como barreiras. O que inicialmente parece apenas uma situação estranha começa a ganhar contornos cada vez mais ameaçadores.

É uma premissa que funciona porque não entrega tudo de imediato. O filme sabe brincar com o desconhecido, principalmente em sua primeira metade. Existe uma atmosfera de inquietação que faz o espectador prestar atenção aos detalhes e tentar montar o quebra-cabeça junto com os personagens. A ameaça não é apresentada de maneira totalmente clara, e isso cria uma tensão interessante, afinal, o que está mantendo aquela família presa? O que existe do lado de fora? E será que permanecer dentro de casa é realmente a opção mais segura? Essa construção, certamente, é o maior acerto da produção.

“A Última Casa” também consegue aproveitar o próprio conceito de confinamento para criar situações curiosas. A rotina familiar precisa ser reorganizada, os recursos começam a se tornar uma preocupação e aquilo que antes parecia banal passa a ganhar importância. O filme encontra alguns bons momentos justamente quando se concentra nessa sobrevivência doméstica e nas pequenas adaptações necessárias para continuar vivendo.

Existe um olhar bastante evidente sobre isolamento e sobre como uma situação extraordinária pode transformar o espaço mais seguro que conhecemos em uma prisão. Nesse aspecto, o filme explora a adaptação da família antes de mergulhar completamente na ficção científica. O problema é que, conforme as respostas começam a surgir, o encanto diminui.

Quando o bom senso fica do lado de fora

Um suspense precisa fazer o espectador acreditar minimamente nas decisões de seus personagens. Não significa que todos devam agir racionalmente o tempo inteiro, até porque pessoas desesperadas podem tomar decisões ruins. O problema de “A Última Casa” é que, em determinados momentos, algumas escolhas parecem existir mais para movimentar o roteiro do que porque seriam realmente tomadas por aquelas pessoas. E isso começa a incomodar.

Em vez de ficarmos exclusivamente preocupados com a ameaça, passamos a acompanhar determinadas situações pensando: “Mas por que eles fizeram isso?” É uma pergunta que aparece mais vezes do que deveria.

O filme poderia usar o confinamento para explorar de maneira mais profunda a paranoia, o desgaste emocional e os conflitos familiares. Há material para isso. Uma família presa durante um período prolongado, sem saber se algum dia poderá sair, oferece um terreno fértil para discutir medo, esperança, culpa e sobrevivência.

Mas o roteiro frequentemente prefere acelerar para a próxima revelação. Isso acaba enfraquecendo os próprios personagens. Algumas decisões são difíceis de comprar, e determinadas reações não parecem ter o peso emocional que a situação exigiria. O problema não é apenas a lógica interna, é que, quando o comportamento dos protagonistas deixa de parecer convincente, a tensão também perde força.

Quando o elenco é melhor que o roteiro

Wagner Moura, um dos principais destaques do thriller | Crédito: Divulgação/Netflix
Wagner Moura, um dos principais destaques do thriller | Crédito: Divulgação/Netflix

Existe uma espécie de contradição curiosa no filme, já que os atores conseguem transmitir uma humanidade que o texto nem sempre oferece.

Wagner Moura é o melhor exemplo disso. Ele consegue transformar Jason em alguém mais convincente do que a própria construção do personagem sugeriria. Há um desgaste gradual em sua interpretação, especialmente na maneira como ele tenta manter algum controle enquanto a situação familiar se deteriora.

Greta Lee também funciona bem ao lado dele. A química entre os dois ajuda a sustentar o núcleo dramático. Fica a impressão de que “A Última Casa” colocou dois atores muito bons diante de um roteiro que nem sempre sabe o que fazer com eles.

Um mistério que não chega a ser tão misterioso

Existe uma diferença entre um filme que esconde bem suas respostas e um filme que simplesmente nos dá pistas suficientes para descobrir tudo antes da hora. “A Última Casa” está muito mais próximo da segunda opção.

Confesso que não demorei muito para entender o que estava acontecendo. Logo nas primeiras aparições das sombras das criaturas, já comecei a imaginar qual seria a natureza daquela ameaça. A silhueta, a maneira como elas se movimentavam e a forma como o filme construía sua presença praticamente entregavam o caminho que a história pretendia seguir. Portanto, quando as respostas finalmente aparecem, não existe exatamente uma grande revelação.

E, curiosamente, isso não me incomodou tanto. O problema de “A Última Casa” não está em ser previsível, mas em não aproveitar completamente as possibilidades que sua própria previsibilidade oferece. Se o espectador consegue antecipar parte do mistério, o roteiro precisa compensar isso desenvolvendo bem as consequências daquela descoberta. E é aí que o filme oscila.

Mesmo sabendo que provavelmente havia criaturas por trás de tudo aquilo, continuei interessado em entender as regras daquele universo. O que elas querem? Por que aquela família está presa? Existe uma lógica para o fenômeno? O que acontece com quem tenta sair? Essas perguntas continuam funcionando porque não dependem necessariamente de uma grande surpresa, mas da construção daquele mundo.

Do suspense para a ficção científica e o terror

É nesse aspecto que o filme consegue manter algum interesse. A transformação gradual do suspense em ficção científica e terror também não chega a ser uma surpresa completa. Desde os primeiros minutos, “A Última Casa” deixa claro que não pretende permanecer apenas em um thriller de sobrevivência. A questão é mais sobre até onde ele vai levar essa ideia. E algumas respostas são, no mínimo, curiosas.

O problema aparece quando o roteiro tenta explicar demais determinadas situações e, ao mesmo tempo, deixa outras questões importantes sem um desenvolvimento realmente satisfatório. Não chega a destruir a experiência, mas cria aquela sensação de que algumas peças foram colocadas no tabuleiro sem que o filme soubesse exatamente como encaixá-las.

Por isso, não diria que o mistério é melhor que as respostas. Eu diria que o mistério simplesmente nunca foi tão misterioso assim e o filme depende mais da atmosfera e da curiosidade do que de grandes reviravoltas.

Para mim, a graça estava menos em descobrir o que estava do lado de fora e mais em acompanhar o que aquela descoberta significaria para os personagens. E é nesse ponto que “A Última Casa” poderia ter ido muito mais longe.

Um final que leva a estranheza até o limite

A Ultima Casa - capa
Crédito: Divulgação/Netflix

Chegamos então ao terceiro ato, quando o filme precisa finalmente colocar suas cartas sobre a mesa. Sem entrar em spoilers, o filme decide levar sua proposta para um caminho bastante inesperado. O problema é que inesperado e satisfatório são coisas completamente diferentes.

O encerramento tenta conectar os acontecimentos anteriores, ampliar o significado da ameaça e oferecer uma conclusão para a trajetória daquela família. A intenção existe. A execução, porém, pode deixar o espectador com uma expressão muito semelhante à de alguém que acabou de ler uma teoria conspiratória às três da manhã e decidiu que, de alguma forma, tudo faz sentido.

O final é um pouco sem noção

Só que existe uma coisa curiosa: pensando bem, ele não é tão diferente do restante do filme. As decisões questionáveis já estavam espalhadas pela narrativa. As explicações cada vez mais estranhas também. O terceiro ato simplesmente leva tudo isso ao extremo.

Por isso, não vejo o final como um problema isolado. Ele é praticamente o resultado natural de um filme que foi aumentando suas apostas sem conseguir manter o mesmo equilíbrio narrativo. E é uma pena, porque havia uma oportunidade muito boa aqui.

Vale a pena assistir “A Última Casa?”

Com uma premissa forte, uma atmosfera interessante e dois protagonistas talentosos, “A Última Casa” poderia ter sido um suspense muito mais marcante. Wagner Moura, especialmente, consegue entregar uma atuação que dá peso emocional a momentos que poderiam facilmente cair no exagero.

“A Última Casa” tem problemas evidentes. Algumas decisões são difíceis de defender, o desenvolvimento dos personagens poderia ser melhor e o terceiro ato perde boa parte da força construída anteriormente. Mas também existe uma atmosfera competente, uma premissa que funciona e uma primeira metade suficientemente intrigante para justificar a sessão.

Não é um filme ruim, mas também está longe de aproveitar todo o potencial que tinha nas mãos.

“A Última Casa” está disponível na Netflix.

Crédito da capa: Divulgação/Netflix

A Última Casa (The Last House) (Estados Unidos, 2026, 1h 50min) – Ação/Suspense/Ficção Científica
Direção: Louis Leterrier
Roteiro: Matthew Robinson
Elenco Principal: Greta Lee, Wagner Moura, Riley Chung, Emma Ho, Noah Alexander Sosnowski, Gabriel Barbosa, Audrey Anderson
Produtor: Kori Adelson, Peter Chernin, Louis Leterrier.
Fotografia: Pål Ulvik Rokseth
Música: Yair Elazar Glotman
Classificação:  anos
Distribuição: Netflix.

A Ultima Casa poster
Crédito: Divulgação/Netflix

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