Romances japoneses exploram cenários acolhedores, animais e elementos fantásticos em histórias sobre relações humanas e recomeços
Uma cafeteria onde é possível viajar no tempo, uma clínica que prescreve gatos e uma biblioteca que recebe pessoas em momentos difíceis. Esses são alguns dos cenários encontrados em romances japoneses publicados no Brasil. Nas histórias, os felinos aparecem como companheiros, guias e até personagens capazes de interferir no destino dos protagonistas. A presença desses animais não é recente na cultura japonesa.
Entre símbolos de boa sorte, criaturas do folclore e personagens literários, os gatos ocupam diferentes espaços no imaginário do país. Essa relação também aparece em obras contemporâneas, muitas delas associadas à chamada healing fiction, ou ficção de cura.
A importância dos gatos na cultura japonesa
Um dos símbolos mais conhecidos é o maneki-neko, a tradicional figura de um gato com uma das patas levantadas. Presente na entrada de lojas e restaurantes, o objeto é associado à sorte e à prosperidade. De acordo com a Organização Nacional de Turismo do Japão, a pata esquerda costuma ser relacionada à atração de pessoas, enquanto a direita representa a chegada de riqueza e prosperidade.
A representação dos felinos também aparece no folclore japonês. Figuras como o bakeneko e o nekomata representam gatos com habilidades sobrenaturais, que podem assumir comportamentos misteriosos ou assustadores. Essas histórias convivem com representações mais cotidianas dos animais, presentes na arte japonesa desde pelo menos o período Edo. Estudos sobre mitos e crenças no país também identificam a presença dos gatos como animais domésticos desde o período Heian.
Na literatura, um exemplo conhecido é “Eu sou um gato”, de Natsume Soseki. Publicado inicialmente em partes na revista literária Hototogisu, entre janeiro de 1905 e agosto de 1906, o romance é narrado por um gato sem nome que observa e satiriza o comportamento dos humanos. A obra demonstra que os felinos já ocupavam espaço na produção literária japonesa muito antes da popularização dos romances contemporâneos.
Cafeterias e bibliotecas na ficção de cura
Nos romances japoneses recentes, os gatos frequentemente aparecem ao lado de outros elementos, como cafeterias, livrarias e bibliotecas. Esses espaços funcionam como pontos de encontro e transformação para personagens que enfrentam perdas, problemas familiares, insatisfação profissional ou mudanças na vida. Parte dessas obras é identificada pelo mercado editorial como healing fiction, expressão utilizada para definir histórias de conforto ou ficção de cura. As narrativas costumam combinar situações cotidianas com elementos fantásticos, apresentando personagens que encontram novas perspectivas por meio de encontros inesperados.
A tendência também ganhou visibilidade nas redes sociais. Em reportagem publicada em novembro de 2024, o jornal The Guardian apontou que 43% dos 40 títulos de ficção traduzida mais vendidos no Reino Unido naquele ano, até então, eram japoneses. O veículo destacou a presença de cafeterias, livrarias, bibliotecas e gatos entre os elementos recorrentes dos livros de conforto. A matéria também relacionou a divulgação dessas obras à circulação no Instagram e no BookTok. O destaque, porém, precisa ser entendido dentro de um recorte específico do mercado editorial. A própria reportagem observa que os livros com gatos não representam toda a produção literária japonesa e que essa tendência ganhou proporções particulares no mercado britânico. No Brasil, diferentes editoras também publicaram romances com essas características.
Quatro livros ambientados em cafeterias e bibliotecas
“Antes que o Café Esfrie”, de Toshikazu Kawaguchi
Publicado pela Editora Valentina em 2022, o romance acompanha quatro personagens que frequentam uma cafeteria localizada em uma rua estreita de Tóquio. O estabelecimento permite que os clientes viajem ao passado, mas a experiência exige o cumprimento de regras específicas. É necessário ocupar uma cadeira determinada, encontrar alguém que já tenha frequentado o local e retornar antes que o café esfrie. Cada visitante tem um motivo particular para tentar reviver um momento da própria história. Ao revisitar acontecimentos e relações que ficaram mal resolvidos, os personagens precisam lidar com arrependimentos e sentimentos que ainda carregam.
“Os gatos do Café da Lua Cheia”, de Mai Mochizuki
Publicado pela Intrínseca em 2024, o livro apresenta uma cafeteria misteriosa que aparece aleatoriamente em Quioto durante as noites de lua cheia. O estabelecimento é administrado por gatos falantes, que recebem visitantes e preparam bebidas e doces. Os felinos também interpretam os mapas astrais dos clientes e oferecem orientações sobre suas vidas. Cada visitante enfrenta dificuldades pessoais e profissionais, e os encontros no café ajudam a desenvolver histórias sobre autoconhecimento, escolhas e novas possibilidades.
“A biblioteca dos sonhos secretos”, de Michiko Aoyama
Lançado pela Sextante em 2023, o romance acompanha cinco personagens que frequentam a biblioteca de um centro comunitário em Tóquio. Entre eles estão pessoas insatisfeitas com o trabalho, inseguras sobre o futuro ou interessadas em mudar de vida. No local, encontram Sayuri Komachi, uma bibliotecária que pergunta aos visitantes o que estão procurando e recomenda livros de acordo com suas respostas. As histórias se entrelaçam e mostram como as leituras sugeridas pela personagem ajudam cada pessoa a enxergar novas possibilidades.
“A biblioteca do gato preto”, de Sanaka Hiiragi
Publicado pela Bertrand Brasil em maio de 2026, o romance acompanha Chisa, uma mulher que perde o noivo, o emprego e a casa poucos dias antes do casamento. Enquanto caminha pela cidade, ela encontra um gato preto que a conduz a uma biblioteca misteriosa. O estabelecimento funciona como um refúgio para pessoas que chegaram ao limite de suas dificuldades. Para deixar o local, Chisa precisa escrever a própria história. Durante a permanência, conhece outros visitantes que também carregam arrependimentos e precisam encontrar uma maneira de seguir em frente.
Quatro histórias em que os gatos têm papel central
“Vou te receitar um gato”, de Syou Ishida
Lançado pela Intrínseca em 2024, o romance apresenta a Clínica Kokoro, um estabelecimento misterioso localizado em Quioto. O tratamento oferecido aos pacientes é pouco convencional: em vez de medicamentos, eles recebem gatos para levar para casa durante um período determinado. Cada personagem enfrenta um problema diferente. Entre eles estão um corretor de investimentos que perdeu o emprego, uma mãe sobrecarregada e uma gueixa que ainda sofre com a morte de sua gata. A convivência com os animais provoca mudanças na rotina dos pacientes e os ajuda a lidar com suas dificuldades.
“Relatos de um gato viajante”, de Hiro Arikawa
Publicado pelo selo Alfaguara, da Companhia das Letras, em 2017, o romance acompanha Nana, um gato que atravessa o Japão ao lado de seu tutor, Satoru. Os dois viajam em uma van para visitar antigos amigos do rapaz, mas o verdadeiro motivo do percurso permanece desconhecido durante boa parte da narrativa. A cada parada, os encontros revelam episódios do passado de Satoru e diferentes relações entre humanos e animais. Narrada por perspectivas alternadas, incluindo a do próprio Nana, a história explora a amizade entre o protagonista e seu companheiro felino.
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“O gato que amava livros”, de Sosuke Natsukawa
Publicado pelo selo Outro Planeta em 2022, o livro acompanha Rintaro Natsuki, um adolescente que enfrenta a possibilidade de fechar a livraria de livros usados da família depois da morte do avô. Sua rotina muda quando um gato malhado chamado Tigre aparece no estabelecimento e pede sua ajuda. Juntos, os dois embarcam em três aventuras fantásticas para resgatar livros aprisionados, maltratados ou abandonados. Durante o percurso, Rintaro conhece personagens que apresentam diferentes maneiras de se relacionar com a leitura. A história combina fantasia e reflexões sobre a importância dos livros e o cuidado com as histórias.
“Se os gatos desaparecessem do mundo”, de Genki Kawamura
Publicado pela Bertrand Brasil em 2024, o romance apresenta um jovem carteiro que recebe o diagnóstico de uma doença terminal. Morando sozinho e tendo apenas seu gato como companhia, ele recebe uma proposta do Diabo: ganhar um dia a mais de vida sempre que aceitar fazer alguma coisa desaparecer do mundo. O acordo leva o protagonista a questionar o valor dos objetos, das lembranças e das relações que fazem parte de sua existência. Conforme precisa decidir o que pode deixar para trás, ele revisita acontecimentos do passado e reflete sobre os vínculos que construiu.
Imagem de capa: mickamroch/Wikimedia Commons
Estagiária sob supervisão de Anna Flávia Lopes
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