Na entrevista a seguir, conheça mais sobre a trajetória do professor e escritor, autor de “Projeto Futuro”

Em entrevista exclusiva ao GeekPop News, o professor e escritor Danilo Heitor detalha os bastidores de “Projeto Futuro”, romance que mistura ficção científica, suspense e história do Brasil. Na trama, duas jovens descobrem um plano sombrio para usar a viagem no tempo e resgatar prisioneiros da ditadura militar como cobaias de experimentos. Com ritmo ágil e narrativa envolvente, a obra aborda um dos períodos mais marcantes do país com muita aventura. 

Confira a entrevista do autor

Para começarmos, gostaria que você se apresentasse aos nossos leitores e compartilhasse um pouco da sua trajetória até aqui

Meu nome é Danilo Heitor. Nasci em São Paulo em 1982 e vivo na cidade desde então. Sou formado em Geografia e trabalho lecionando e editando materiais didáticos. Escrevo desde criança, mas comecei a publicar em 2021, com meu primeiro livro, Consigo, lançado pela editora Primata. Desde então, passei a me dedicar principalmente à ficção científica, gênero no qual publiquei quatro obras: uma noveleta, um livro de contos e dois romances.

Você atua há mais de 15 anos na área da educação. Sabendo que leitura e ensino caminham lado a lado, de que forma essa bagagem como professor influenciou a sua trajetória como escritor e agrega ao seu processo criativo?

Desde que comecei a dar aula, passei a registrar momentos do cotidiano: aulas que deram certo ou errado, conversas inusitadas, além de situações trágicas e cômicas. Boa parte desses registros se tornou crônica, publicada nas minhas redes sociais e newsletters. Quando comecei a escrever contos, passei a me inspirar nessas vivências para construir personagens, ambientes e situações. Durante a pandemia, por exemplo, nós, professores, nos questionávamos e imaginávamos como seria o retorno à escola.

Isso gerou dois contos: um chamado “A classe”, que falava das máscaras e é, na verdade, um miniconto; e outro chamado “O retorno”, escrito em parceria com a minha companheira, que também é professora. O conto “A classe” foi selecionado em um edital de minicontos, e ambos foram publicados no meu livro Consigo. Até hoje, a sala de aula, com seus anseios e devaneios, serve de inspiração: no meu último livro, Projeto Futuro, as duas protagonistas são estudantes e parte da história acontece na escola, durante as aulas de História.

Vamos falar da sua obra: “Projeto Futuro” é uma história ousada e instigante. Como surgiu a ideia que deu vida a esse enredo?

A ideia surgiu no grupo dos Escambanautas, que orbita em torno da Editora Escambau, nascida, por sua vez, da Revista Escambanáutica, uma publicação de ficção especulativa decolonial e centrada no Sul Global. Em uma das conversas do grupo, pensei em uma premissa na qual, para lidar com a superlotação dos presídios, o governo brasileiro utiliza uma máquina do tempo para enviar detentos ao futuro, sem se preocupar com as consequências. 

Várias pessoas interagiram com a ideia e, aos poucos, fui lapidando-a, até decidir estruturá-la a partir dos desaparecidos políticos da nossa ditadura: e se eles não tivessem sido mortos, mas enviados para o futuro, o qual é o nosso presente? A partir disso, criei as personagens, inspiradas em minhas alunas e na dificuldade de falar sobre a ditadura em sala de aula, já que o período é cercado de mentiras e tabus, além de estar espaçotemporalmente distante da realidade atual dos adolescentes.

Esse interesse pela temática dos desaparecidos políticos durante a ditadura militar já fazia parte das suas pesquisas ou de leituras anteriores?

Eu sou de uma família que viveu e combateu a ditadura. Meus pais e todos os amigos deles foram militantes: alguns desapareceram, outros foram torturados. Com o crescimento atual das apologias ao regime militar, esse tema, que sempre me foi muito sensível, aflorou ainda mais. 

Antes de Projeto Futuro, escrevi, em 2022, Todos, que também lida com o sistema prisional, mas, nesse caso, aborda o massacre do Carandiru, o qual vivenciei aos 10 anos de idade ao lado da minha mãe. 

Há um personagem comum nos dois livros, o Doutor, que pretendo explorar em futuros trabalhos. Em Projeto Futuro, a personagem Rosalina e seu irmão desaparecido são homenagens a Rosalina Santa Cruz, amiga da minha mãe, e a seu irmão Fernando Santa Cruz, um dos desaparecidos do regime.

A história incorpora elementos de viagem no tempo. Na sua visão, de que forma a ficção científica serve como ferramenta para discutirmos temas complexos da nossa história?

O maior poder da ficção científica é a alegoria. Todas as histórias do gênero fazem uso dela, imaginando tecnologias, civilizações e situações que servem para projetar e especular dimensões da sociedade. Muitas vezes, uma alegoria ajuda a aproximar temas difíceis da realidade de pessoas que não estão acostumadas a debatê-los.

Como Projeto Futuro é uma ficção jovem adulta, transformar a memória dos desaparecidos, uma luta real e contínua desde a época do regime, em viagem no tempo foi uma forma de apontar para o fato de que a morte deles não pode e não deve ser esquecida; sempre haverá quem se lembre e quem tente escondê-los. O elemento fantástico serve justamente para trazer essa discussão para o presente, transformando-a em um acontecimento chamativo que abre caminho para o debate.

Como você enxerga a capacidade das novas gerações de analisar, compreender e refletir criticamente sobre o nosso passado político e social?

Pergunta difícil. A internet oferece muita informação, mas ao mesmo tempo nos sequestra para vivermos apenas o que o algoritmo nos mostra. Isso cria câmaras de eco que repetem, cada uma para a sua bolha, uma verdade diferente, enquanto as outras perspectivas acabam sendo solapadas.

Ao mesmo tempo, eu vivo e vejo na escola muitos adolescentes perguntando e querendo saber do passado, principalmente para dar significado às próprias identidades. A temática LGBTQIAPN+, por exemplo, é muito mais discutida e apropriada por eles do que foi pela minha geração na idade deles; o racismo, da mesma forma. Então, muitos buscam entender o que foi nosso passado justamente para poder validar a própria dor e a própria existência no presente.

As protagonistas da história são duas jovens muito cativantes. Na sua visão, os jovens de hoje precisam se interessar mais pela história do país?

Tem uma frase famosa que diz que um povo que não se lembra de seu passado está condenado a repeti-lo. Eu tinha uma camiseta que eu mesmo fiz com essa frase na adolescência. Entender o processo de construção do Brasil e todas as suas violências é essencial para conseguirmos imaginar um futuro melhor.

É impossível querer transformar o mundo sem entender como ele foi constituído. Quem quer que o mundo permaneça violento e desigual sabe disso e constrói narrativas mentirosas para conquistar a juventude: redpill, tradwife, são várias circulando por aí. Cabe a quem deseja um mundo novo fazer o contrário

Além de Rosalina, na composição do núcleo principal, você se inspirou em pessoas reais, figuras públicas ou vivências do seu convívio?

Tudo isso ao mesmo tempo: Leilane é inspirada em uma amiga querida que morou comigo; Soraia, em outra amiga querida com quem jogo futebol há muitos anos; Miquéias, em um amigo professor de física do cursinho popular em que trabalhei por 16 anos, que também é um dos meus maiores leitores beta; e Rosalina, como disse antes, em Rosalina Santa Cruz, amiga de minha mãe e militante contra a ditadura.

Para atender à curiosidade dos leitores: quais são os seus próximos passos? Já está gestando algum novo projeto literário?

No momento, tenho dado atenção à editora que criei em 2025, País Nenhum. Este ano ainda sai a primeira coletânea que organizei, por meio dela, Futuros melhores: fronteiras, com 10 contos que abordam futuros em que conseguimos construir um mundo melhor. 

Também tenho um novo livro, “Dois fins”, ainda em processo de finalização. Ele concorreu ao Prêmio Tato Literário e foi finalista. Quero acertar algumas coisas nele para procurar uma editora que se interesse ou para lançá-lo pela própria País Nenhum. É um romance que se passa na Pedra Grande, ponto mais alto de uma São Paulo que foi completamente alagada e deixou ali no alto apenas uma sobrevivente.

Nele, tentei também trabalhar um pouco a forma: o texto é dividido em três colunas, que simbolizam o pensamento da personagem, suas interações com o mundo e as devolutivas do mundo para ela. Além dele, tenho também um romance em construção há muitos anos, “Tente mudar o amanhã”, que é uma utopia inspirada no movimento punk e nas muitas lutas sociais da América Latina. Um dia sai.

Para finalizar, que mensagem você gostaria de deixar para os leitores do GeekPopNews?

Mais do que nunca, estejam com os seus. A vida é coletiva, a luta é coletiva e a escrita é coletiva: nada do que criei foi feito sozinho. Os próximos anos serão difíceis, e precisamos estar juntos para passar por eles. Organizem-se para isso! E se quiserem trocar ideia, saber mais sobre os meus escritos ou conversar sobre qualquer coisa, é só me procurar nas redes sociais, pois todas elas estã no meu site. Muito obrigado ao GeekPop News pelo espaço!

Imagem de capa: Divulgação