Autor paraibano conta como a seca de 1931 virou fábula política no romance “O sibito baleado”

Francisco Leite Duarte transformou a seca de 1932 em uma fábula política em que os pássaros lideram a revolução. Em “O sibito baleado”, o escritor paraibano une a tradição regionalista dos anos 1930 ao realismo mágico. Assim, ele fala de autoritarismo, desigualdade e manipulação da verdade.

A trama se passa no alto sertão da Paraíba e se divide em dois planos que se espelham: o dos humanos e o das aves.Porém, cansados de pagar um imposto abusivo em sementes para beber água, os pássaros se rebelam contra o tirano Guiratinga. Quem lidera o levante é Fubica, um sibito de perna e asa quebrada. O menino Binga e o fazendeiro Pedro Bicudo o resgataram.

Natural de Uiraúna, na Paraíba, Francisco trabalhou por mais de 30 anos como Auditor-Fiscal da Receita Federal. Hoje, ele é advogado tributarista e professor da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Em entrevista exclusiva ao Geek Pop News, o autor fala sobre a relação com a literatura e a escolha de narrar a revolução pelos bichos. Ele também comenta como a infância no sertão aparece, de forma simbólica, na obra.

Confira a entrevista com Francisco Leite Duarte

Você foi Auditor-Fiscal por mais de 30 anos e hoje é advogado e professor. O que te fez voltar sempre para a literatura em meio a essa rotina?

Eu sempre fui curioso pelas letras. Quando eu estava me alfabetizando, nos anos finais da década de 60, havia, no quarto em que eu dormia, uma lata, dessas grandes de querosene. Nessa época, vivíamos à luz de lamparina. Pois bem, uma das minhas preocupações era decifrar o significado da sigla “LTDA” ali exposta à minha frente, naquela lata. Sofri com isso.

Eu já entendia o bê-a-bá, mas como é que poderia compreender a junção de consoantes? LTDA? Na zona rural, nem minha professora das primeiras letras, Maria Dantas, sabia que aquele entrelaçamento esquisito de letras era a sigla da palavra “limitada”, um tipo societário.

Assim, essa curiosidade pelas letras e pelo mundo que elas revelam me seguiu e me acompanha pela vida inteira. Não seriam o esquematismo frio das regras de incidências tributárias, a formalização da constituição de um crédito tributário, a papelada oficial e seus procedimentos burocráticos, tampouco a exaustão cotidiana das vivências em sala de aula que iriam me limitar.

Enquanto eu trabalhava na auditoria fiscal da Receita Federal do Brasil e ministrava aulas no ensino superior, sempre sobrava um tempo para uma poesia, uma prosa poética, um texto qualquer. Essas coisas das nossas essências mais recônditas são como água represada, que se contorce, afina os seus propósitos, pois é da natureza o movimento das boas revelações, nem que sejam à luz de lamparina.

Você já publicou romances, contos e um livro de memórias. Qual desses formatos foi o mais difícil de escrever, e por que?

Sob a perspectiva estritamente emocional, o livro de memórias “Os longos olhos da espera”, embora tenha sido o umbral para a minha prosa, foi o mais difícil de escrever. Contém dores externadas, revisitadas uma a uma, um exercício de contemplação das próprias agruras, muito embora contadas de forma lúdica e sem ressentimentos.

No entanto, do ponto de vista técnico, da concepção, da pesquisa, da tapeçaria da obra, enredo, personagens e tom, inegavelmente, o romance se expõe em dificuldades muitas vezes intransponíveis. Quantos romances não estão nos olhando, implorando por um recomeço! Eu tenho muitos.

A escrita de um romance é encontrar o mínimo múltiplo comum harmônico entre muitos elementos reais ou simbólicos que dormitam, não necessariamente em justa trégua, nas nossas almas, buscando uma unidade de sentido. Chegar a essa síntese, a essa estrutura em justo equilíbrio, é o sonho de todo escritor ou escritora.

Por que a revolução em “O sibito baleado” é liderada pelos pássaros, e não pelos humanos da história?

Porque seria mais um livro sobre secas. E quem, meu Deus, no âmbito da literatura regional brasileira, na perspectiva da cultura nordestina, poderia se emparelhar com Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos, José Américo e tantos outros?

Demais disso, nossa literatura quis, propositadamente, atualizar o romance regionalista de 30, deslocá-lo do aspecto descritivo e documental para incorporar a fábula política em sua composição, permitindo a sátira das estruturas de poder, a opressão, a pós-verdade e as fake news, sem as peias do literalismo histórico.

Quis, então, construir uma linguagem poética, enxuta e invertida, tirando o sertão do lugar-comum da pura escassez e transformando-o em espaço de encantamento simbólico. Dessa forma, foi possível colocar a força da mudança nas asas do ser mais frágil e pequeno da Serra do Desterro (O sibito, uma cambacica), sublinhando poeticamente a ideia de que a resistência e a busca por justiça social partem justamente daqueles que parecem mais desamparados diante da opressão e da escassez.

E, por fim, em vez de focar apenas no sofrimento humano isolado, a narrativa integra a fauna e o ecossistema sertanejo na mesma luta por sobrevivência, de modo que a revolução deixa de ser uma disputa partidária ou ideológica puramente humana para se tornar uma defesa vital pela partilha da água e do alimento, bens retidos pela tirania que castiga tanto homens quanto bichos.

capa do livro o sibito baleado
Imagem de texto: Reprodução amazon

Fubica consegue unir espécies como besouros na luta contra o tirano Guiratinga. Como foi pensar essa aliança entre espécies tão diferentes dentro da narrativa?

As boas alianças políticas têm o tamanho da força de que precisam para a derrocada do inimigo comum. Assim, para romper com o realismo tradicional das narrativas de seca e estruturar uma fábula política, usamos o realismo mágico latino-americano, quase uma epistemologia no esquadrinhamento da narrativa

Assim, essa união improvável entre passarinhos e besouros serve como o motor alegórico para demonstrar que a resistência contra o terrível Guiratinga, aquele bicho de sobrecu fedido e arrastado pelo chão, não depende da força física individual, mas sim da solidariedade coletiva, a natureza em sua plenitude de viventes combatendo a opressão comum.

Além do que, a base da narrativa é a falta de água. Por água, qualquer tipo de bicho faz uma revolução. E tudo é tão urgente. A urgência do inimigo comum, o poder da palavra (piado) de Fubica, um ser tão frágil e machucado, sua pequenez e vulnerabilidade conectam outras espécies igualmente marginalizadas.

Por fim, algo que não pode faltar nas respostas é a questão do simbolismo político. Os besouros e rola-bostas representam a base mais rebaixada e invisível da pirâmide social do ecossistema. Ao selar pactos históricos com eles, a narrativa ganha uma camada de crítica social, ilustrando que a verdadeira transformação nasce da organização daqueles que são tidos como os mais insignificantes pelo poder vigente.

Você disse que se via como o próprio “Sibito baleado” quando criança. Quanto da sua infância real está dentro do personagem?

Quem nasceu nos anos 60 na zona rural do alto sertão da Paraíba, quem teve pais analfabetos, sendo um deles nascido em 1898, e uma mãe que perdeu quatro filhos ainda bem pequenos, e também a visão esperando por algum tipo de tratamento prometido por políticos inescrupulosos (já que a ausência do Estado era ostensiva e criminosa), e consegue escrever um livro como “O sibito baleado”, não tem condições de dizer ou negar que sua pessoa, ou alguma vertente dela, não transite, ainda que simbolicamente, pelos labirintos narrativos da obra escrita.

Aliás, existe uma expressão nordestina, bem conhecida na Paraíba, Ceará, Rio Grande do Norte e Pernambuco, para representar pessoas bem magras, de certa forma desengonçadas, e que deu origem ao nome do livro “O sibito baleado”. Quantos nordestinos e nordestinas já não foram chamados, sibitos, baleados! Eu fui um deles. Por essa perspectiva, sibitos baleados, uni-vos. Na literatura também.

Apesar dos temas fortes, como fome e opressão política, o livro tem humor satírico. Teve alguma cena cômica que você gostou especialmente de escrever?

Ah, eu sou um chorão. Se eu não aliviasse a carga dramática das cenas com certa dose de humor, não conseguiria terminar o livro. Então, eu soluço e rio. Até em um romance de terror (horror, na verdade), chamado “O pequeno Davi” (disponível na Amazon), também ambientado na zona rural da cidade de Uiraúna, encontraremos cenas um tanto hilárias, como a de uma sapinha feminista.

No caso de “O sibito baleado”, temos vários exemplos. Nesta passagem: 

“Ledo engano. A sibita Mariquinha não lhe dava trela. Começava a admirá-lo. É verdade, mas faltava aquele clima, aquela empatia, um desejo especial. Fubica tinha as pernas finas e as asas alongadas e esqueléticas. A bunda era para dentro e Mariquinha era chegada em passarinho de bunda grande, o que era um problema em época de uma estiagem desembestada dos infernos.”

Nessa outra, quando a mãe biológica de Binga explica como ficou grávida de um passarinho gigante:

“– Mas, ele tem quase duas vezes a sua idade! Como você foi se engraçar por ele?

– Eu nem sei como ele começou, madrinha. Estava sonolenta. Como ele estava disfarçado de passarinho, não senti nada. Já pensou? Sou uma quenga virgem. Como é que vou explicar uma coisa dessas?”

E nesta:

“– Desculpe, seu Pedro. Meu filho não vai deixar de se arrumar com uma professora de Sum Paulo para se casar com uma analfabeta que só sabe o que é o “O”, porque se senta em cima.

-“Pois diga a ele que tenha cuidado. O pai da moça vai cortar o saco dele e dar para os gatos. E sou um dos ajudantes. Aí ele fica sem ovo e sem professorinha.”

Aliás, se quiserem conhecer melhor nossa verve humorística, conheçam o nosso romance “A vovó é louca” (Amazon). A vovó é linda… e louca, pensem em uma vovó cruzeta e arretada do juízo!

Qual mensagem você quer que o leitor leve desse livro?

A justiça perfeita ou ideal pode até parecer inalcançável diante da opressão, mas a luta coletiva contra a tirania e a desigualdade é um dever indispensável, eticamente necessário, politicamente irrecusável. Resistência contra o autoritarismo, força da coletividade, perigos do pós-verdade, da manipulação política e das fake news. Essa é a mensagem.

Enfim, o livro funciona como uma metáfora poética de que a opressão deve sempre ser combatida, celebrando o poder de imaginação e a resiliência do povo sertanejo, desde porque o sertanejo já não foge da seca e dos seus tiranos. Enfrenta-os!

Há algo a mais que você gostaria de comentar sobre seus próximos projetos?

Estou com dois livros prontos. Um de crônicas e outro de poesias, mas percebo que, nesse momento, é preciso coibir a ansiedade. O momento é de “O Sibito baleado”. Então, aguardemos.

No que diz respeito à narrativa longa, tenho um romance com a escrita bastante avançada, com nome e tudo, “O demônio de Laplace”, e outro projeto mais ambicioso. Quanto a esse, eu juro: estou doido para anunciá-lo ao mundo inteiro, mas é preciso segurar as estribeiras.

Para finalizar, poderia enviar uma mensagem para os nossos leitores?

Deixo essa cantoria do sibito baleado, feita especialmente para incentivar sua revolução:

Vamos saquear Belém,

mostrando que temos raça,

para matar essa fome

Expulsando essa desgraça.

Os filhos de Carcaró

Recusam a morrer ao sol

Num mundão de tanta graça.

Assim, porque a pequenez é apenas uma ilusão quando há coragem e determinação, porque sonhar é preciso, mas voar também, porque a arte não é apenas contemplação, deixo essa exortação: Poeme-se, mas denuncie as injustiças e desperte consciências.