“Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor”, é uma das frases mais famosas do educador, filósofo e escritor brasileiro Paulo Freire. Nascido em Recife, em 1921, Freire se tornou um dos pensadores mais importantes da história da educação. Mesmo quase trinta anos após sua morte, o mundo continua reconhecendo seu trabalho em defesa da educação popular.

Freire cresceu em uma família de classe média que enfrentou dificuldades financeiras durante sua infância. O contato com a pobreza e a desigualdade social desde cedo influenciou profundamente sua maneira de compreender a educação e marcou o desenvolvimento de seu pensamento pedagógico. Seu casamento com a professora Elza Maia Costa de Oliveira também foi uma importante influência para sua trajetória intelectual e pedagógica. Por mais que tenha se formado em direito pela atual Universidade Federal de Pernambuco, esta não foi a área que escolheu seguir. 

Entre os anos de 1940 e 1950, Paulo Freire trabalhou com questões sociais e educação. Em 1947, passou a trabalhar no Serviço Social da Indústria (SESI), em Pernambuco. Foi assim que ele então desenvolveu boa parte das ideias que integram o seu modelo de alfabetização.

O método Paulo Freire

Em 1963, Freire coordenou uma experiência na cidade de Angicos, no Rio Grande do Norte, que ficou famosa por ter alfabetizado aproximadamente trezentos trabalhadores através de quarenta horas de atividades educativas.No entanto, o método ia além. Diferentemente do ensino tradicional, que apresenta letras e sílabas de forma isolada, Paulo Freire partia da realidade e das experiências dos próprios alunos para desenvolver seu método de alfabetização.

Aluno estudando o método Paulo Freire
Crédito: Acervo Paulo Freire

Assim, o educador trabalhava com palavras que faziam parte do cotidiano desses adultos, como terra, alimento, moradia e salário. Dessa forma, o método consiste em identificar essas palavras, explorar os sons, sílabas e formação de palavras, discutir o significado e suas relações com a realidade social. Ao mesmo tempo, os alunos são estimulados a interpretar criticamente o mundo em que vivem.

Para ele, a educação deve ir além do ler e do escrever, oferecendo ferramentas que façam o aluno compreender e questionar o próprio contexto. Freire foi um grande defensor de que não saber ler e não ter nenhum conhecimento são coisas distintas. A experiência individual pode e deve servir como a porta da aprendizagem.

A ditadura militar

O projeto de alfabetização ganhou repercussão nacional e discutiu-se a possibilidade de levá-lo para outras regiões do Brasil. No entanto, o golpe militar aconteceu no ano seguinte e impediu o avanço. Freire foi acusado de subversão, foi preso e ficou detido por aproximadamente setenta dias. Ao ser liberto, deixou o Brasil e permaneceu exilado por dezesseis anos.

Após passar pela Bolívia e por outros países, estabeleceu residência no Chile e continuou atuando no campo educacional. Durante esse período, escreveu “Pedagogia do Oprimido” e outras grandes obras. Seu retorno para o Brasil aconteceu em 1980. Paulo Freire foi secretário municipal de Educação de São Paulo entre 1989 e 1991, durante a gestão de Luiza Erundina.

Paulo Freire recebe ecebeu o título de Doutor Honoris Causa da Unicamp, em abril de 1988
Crédito: Acervo Histórico do Arquivo Central (Siarq/Unicamp)

A filosofia do autor

Paulo Freire criticava duramente o modelo de ensino que chamou de educação bancária, em que um professor é visto como o único detentor do conhecimento e o aluno como aquele que precisa apenas receber e decorar as informações. Nesse sentido, ele defendia que a educação deveria ser pautada no diálogo e na construção coletiva do conhecimento.

Para Freire, o aluno era o protagonista de sua aprendizagem e o professor, um orientador que deveria estimulá-lo a pensar por conta própria. Assim, uma de suas ideias mais famosas é que “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”. Ou seja, ele defendia que todos nós sabemos compreender a realidade à nossa volta, mesmo antes de sabermos ler e escrever. 

Durante seu período na Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, ele trabalhou em diversos projetos, como a ampliação da alfabetização de jovens e adultos, revisão dos currículos escolares, democratização da gestão escolar, melhoria das condições de ensino na rede pública, participação da comunidade nas decisões das escolas e valorização dos profissionais da educação.

Obras e legado

“Pedagogia do Oprimido” figura entre suas obras mais famosas. Nela, Freire discute as relações de poder, a desigualdade social e o papel da educação na emancipação das pessoas. Em “Educação como Prática da Liberdade“, abordou a alfabetização e a democracia. Outros títulos importantes incluem “Extensão ou Comunicação?”, “Pedagogia da Esperança” e “Pedagogia da Autonomia”. Em 2012, o Brasil o reconheceu como patrono da Educação Brasileira.

As ideias de Paulo Freire influenciaram professores, pesquisadores e movimentos educacionais ao redor do mundo.
Até hoje, sua obra continua despertando debates e sendo estudada e analisada tanto por pessoas que defendem suas ideias quanto por aquelas que fazem críticas ao seu pensamento.

Imagem de capa: Reprodução Editora Elefante