Com imagens inéditas e depoimentos de sobreviventes, Anita Leandro recupera a memória da luta pela anistia no Brasil.

Anistia 79, de Anita Leandro, promove um verdadeiro mergulho na história brasileira. O documentário revela imagens inéditas, guardadas há mais de 50 anos, da Conferência Internacional pela Anistia no Brasil. Além disso, com depoimentos de antigos exilados políticos e seus familiares, a produção chega aos cinemas em 20 de agosto, com distribuição da Embaúba Filmes.

Carregado de emoção e relevância política, o longa reforça ainda mais a importância do trabalho de pesquisa brasileiro. Anistia 79 nasce de uma cooperação entre a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o Archivio Audiovisivo del Movimento Operaio e Democratico (AAMOD) e a Association Amnistia 1979. Além disso, vale destacar que Anita Leandro integra o quadro de professores da Faculdade de Cinema da UFRJ. Assim, o filme também representa uma contribuição importantíssima para a produção acadêmica e audiovisual.

As imagens de Hamilton Lopes dos Santos conduzem essa narrativa. O brasileiro registrou depoimentos durante o Tribunal Russell II, realizado em Roma, em março de 1974, como o de Denise Crispim. Esse primeiro depoimento, por sua vez, toca justamente por não ter voz própria. Denise se encontra sem forças, e outra pessoa lê sua declaração.

Na sequência, os takes filmados em 16 mm retornam ao tribunal internacional, formado pelo senador italiano Lelio Basso, já em junho de 1979. Nesse momento, ainda mais vítimas e organizações se unem pela anistia e expõem todo o mecanismo de repressão do regime militar no Brasil.

Reproduzir para não repetir

A morte de Eduardo Leite, o Bacuri, desencadeou esse movimento em uma escala ainda maior. Companheiro de Denise Crispim, ele caiu nas mãos das forças de repressão e passou mais de 100 dias em regime de cárcere e tortura. Ao mesmo tempo, os depoimentos do presente completam a história do passado. É o caso da mineira Heloísa Greco, filha de Helena Greco, um importante nome na luta pelos direitos humanos. Heloísa é uma das personagens dessa história que ainda resiste. Como pesquisadora ávida, ela transforma seu depoimento em material vivo desse enredo e o acompanha constantemente com seus documentos e anotações.

Crítica | 'Anistia 79' relembra fatos para que eles não se repitam
Eduarda Crispim Leite, filha de Eduardo Leite, o Bacuri // Crédito: Reprodução / Embaúba Filmes

Outra passagem forte traz Denise Leal e Mariana Leal Conceição Nóbrega, viúva e filha de Manoel da Conceição, respectivamente. Manoel, ou Mané, como era conhecido, liderou trabalhadores rurais no Maranhão e sofreu uma severa perseguição durante os anos de chumbo. Juntas, elas relembram uma de suas prisões, que fez o militante perder uma das pernas.

Esses e outros relatos tornam a situação mais palpável para as gerações que não viveram a ditadura militar, como a minha. É claro que muitos ainda possuem parentes que viveram naquela época, mas podem enxergar esses acontecimentos apenas como histórias dos antigos. Por isso, ver tudo documentado em imagens de tanta qualidade se torna uma ferramenta valiosíssima para combater o desconhecimento e a desinformação. O golpe de 64 existiu, e essas pessoas estão aqui para contar essa história.

Vale a pena assistir ‘Anistia 79’?

Se você quer saber mais sobre a história brasileira, vale a pena! Na verdade, para mim, não existe uma motivação específica: é uma questão de cidadania um povo entender e aprender sobre sua própria história. Além disso, nesse caso, a narrativa continua viva. Um movimento mundial levou ao surgimento de regimes totalitários ao redor do planeta. Isso te parece familiar?

Neste caso, não cabe a mim elencar pontos técnicos para avaliar esta produção. Afinal, esta vencedora de prêmios da Mostra Tiradentes já se faz relevante pelas informações que carrega e pela reflexão que propõe. Aqui, a qualidade técnica se torna um mero detalhe. Agora, este longa brasileiro entra na lista de produções que remontam a um dos períodos mais sombrios de toda a América Latina. Anistia 79 chega aos cinemas em 20 de agosto de 2026.

Imagem de capa: Divulgação / Embaúba Filmes

Anistia 79
Documentário, Brasil, 2026, 105min

Direção: Anita Leandro
Elenco : Hamilton Lopes dos Santos, Luiz Eduardo Greenhalgh, Heloísa Greco, Branca Moreira Alves, Denise Crispim e outros.
Produção : Maria Flor Brazil e Alice de Andrade
Roteiro : Anita Leandro e Alice de Andrade
Montagem : Anita Leandro e Isabel de Castro
Fotografia : Bené Machado
Som: Glaydson Mendes
Produtora : Montanha Russa Cinematográfica
Coprodutora(s) : Banda Filmes
Distribuidora : Embaúba Filmes

Crítica | 'Anistia 79' relembra fatos para que eles não se repitam
Crédito: Embaúba Filmes

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