Adaptação inspirada na obra de Alexei Tolstoy, “Pinóquio” investe em espetáculo visual e musical, mas enfrenta limitações na construção dramática
A nova versão de “Pinóquio” chega como mais um título de temporada voltado ao público familiar. A proposta é clara: recontar uma história conhecida com novos recursos visuais e linguagem contemporânea. A execução, no entanto, revela um projeto mais preocupado com escala do que com profundidade.
Dirigido por Igor Voloshin (“Senhor do Vento”), o longa se posiciona como um musical de fantasia. A narrativa parte de uma releitura do conto de fadas. A ideia central gira em torno da alteridade e da busca por pertencimento. O filme acompanha um boneco de madeira que ganha vida e tenta encontrar seu lugar em um mundo que o rejeita. A premissa funciona, mas o desenvolvimento apresenta inconsistências.
Entre o espetáculo visual e a narrativa genérica
A trama acompanha um homem solitário que deseja ter um filho. Esse desejo se concretiza quando um tronco ganha vida e se transforma em Pinóquio. A partir daí, o filme segue uma estrutura episódica. O protagonista enfrenta rejeição, foge de casa e se envolve com o teatro de Karabas-Barabas.

O roteiro tenta equilibrar aventura, musical e lição moral. No entanto, a construção narrativa é fragmentada. Os acontecimentos se sucedem sem progressão dramática consistente. Cada novo cenário introduz conflitos pontuais. Mas poucos deles se desenvolvem de forma significativa.
A comparação com outras produções do gênero é inevitável. Filmes familiares recentes têm explorado nostalgia como estratégia central. Aqui, o recurso é evidente, personagens clássicos reaparecem. Situações conhecidas são revisitadas. O efeito, porém, é limitado. A repetição reduz o impacto da narrativa.
Visualmente, o filme apresenta um investimento claro. A ambientação remete a cidades italianas do interior, o cenário construído oferece escala e detalhamento. Os figurinos, assinados por Nadezhda Vasilyeva (“The North Wind”), reforçam essa proposta estética. Há uma tentativa de criar unidade visual que, em alguns momentos, funciona. Em outros, a sensação é de artificialidade. Os espaços parecem amplos, mas pouco habitados. Falta densidade ao ambiente.
Musical funcional, mas irregular

Apesar de não assumir completamente essa identidade, “Pinóquio” opera como um musical. As canções fazem parte da estrutura narrativa. Muitas delas são releituras de composições conhecidas dos russos. Os números musicais variam em execução. Alguns ampliam a história, outros funcionam como interrupções. Além disso, a coreografia nem sempre acompanha a ambição das cenas.
A direção demonstra limitações na condução desse tipo de sequência. Ainda assim, o uso da música cumpre um papel estratégico. O reconhecimento das canções reforça o apelo nostálgico. Isso aproxima o público mais velho. Ao mesmo tempo, facilita a entrada de novos espectadores.
Personagens numerosos, desenvolvimento limitado
O elenco reúne diversos nomes conhecidos no país de origem do filme. No entanto, a quantidade de personagens compromete o tempo de tela individual. A narrativa distribui atenção de forma desigual, alguns personagens aparecem apenas como suporte.
O próprio Pinóquio, criado por captura de movimento, apresenta um contraste. A construção técnica chama atenção. Os movimentos e expressões funcionam em certos momentos. Em outros, causam estranhamento visual. A estética do boneco exige adaptação inicial do espectador.
Os personagens do teatro de Karabas-Barabas exemplificam o problema. Eles compõem o cenário. Mas não possuem desenvolvimento. Permanecem como figuras secundárias. Isso reduz o impacto emocional da trama.

Tema central se perde em abordagem didática
A ideia de alteridade é um dos pontos mais claros do filme. Pinóquio entende que é diferente, ele enfrenta rejeição e busca aceitação. Esse arco poderia sustentar a narrativa. No entanto, o tratamento do tema é excessivamente didático. O roteiro recorre a lições explícitas. O discurso moral se sobrepõe à construção dramática. Isso compromete a naturalidade da história.
O conflito entre liberdade e controle, representado pelo teatro de Karabas, também aparece. Mas não é explorado com profundidade. Funciona mais como pano de fundo do que como eixo narrativo.
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Vale a pena assistir “Pinóquio”?
O filme funciona como entretenimento acessível. É uma opção viável para o público familiar. A estética e a trilha sonora contribuem para a experiência.
Por outro lado, a narrativa irregular, o excesso de personagens e o tom didático limitam seu impacto. “Pinóquio” entrega o básico do gênero, mas não se destaca.
Pinóquio
Rússia, 2026, 102 min.
Direção: Igor Voloshin
Roteiro: Aksinya Borisova, Alina Tyazhlova, Andrey Zolotarev
Elenco Principal: Fedor Bondarchuk, Vitaliya Kornienko, Aleksandr Yatsenko
Produção: Vadim Smirnov, Anastasiya Korchagina, Olga Galuzinskaya
Direção de Fotografia: Maxim Zhukov
Trilha Sonora: Aleksey Rybnikov
Classificação: 12 anos
Distribuição: Paris Filmes

Imagem de capa: Divulgação
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